O Peixe enquanto Graffiti, Ideograma e “Desenho a Compasso”
O
Graffiti acompanha o Homem desde a Pré-História. Encontramos na
Arte da Pré-História as primeiras representações do mundo dos
nossos antepassados. Nesse tempo a Arte era também Magia, Religião
e até Ciência. Nos painéis rupestres encontramos línguas
milenares pintadas e escritas na pedra. Cenas que são os livros e
bibliotecas do passado. Percebe-se assim a importância da Arte
Pré-Histórica. Compreende-se assim que pare a construção de
Barragens. Para períodos recuados este “Graffiti Pré-Histórico”
é reconhecido e valorizado. O Graffiti tem uma incrível
continuidade. Há rochas onde o Homem vem "escrevendo" há
milhares de anos. Rochas em que todo o espaço está preenchido por
riscos que se cruzam e sobrepõem. "Puzzles" que têm que
ser desmontados peça a peça. Um espetacular desafio para os
investigadores. Encontramos nesta continuidade a importância do
“Graffiti Histórico”. Uma autêntica máquina do tempo que nos
permite chegar a mundos antigos ainda vivos. Lentamente temos sido
apresentados a um mundo escondido à vista de todos o mundo. Um mundo
que não se vê quando se anda a correr de um lado para o outro. É
preciso olhar, voltar a olhar, se tivermos sorte, se a luz estiver no
ângulo certo, lá vemos uns riscos. Estes são representam vozes de
um passado que não está nos livros de História. O Graffiti
Histórico é feito de Marcas de Canteiro, Slogans Políticos,
Ideogramas Mágico Religiosos, Fórmulas Mágicas, Mouras Encantadas,
Rezas e Maldições (Figura 1). Hoje o Graffiti, enquanto Arte,
está bem vivo. Em Portugal temos mesmo uma "Geração de Ouro".
Artistas como VHILS e Bordalo II elevam as suas formas de expressão
a patamares reconhecidos internacionalmente. O Graffiti que tem
sempre uma mensagem nem que seja apenas o nome do artista ou "tag".
E quantos "tags" estão escondidos na Arte Rupestre por
vezes na forma de uma simples mão.
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| Figura 1 |
Encontramos nas obras de Arte
que embelezam Palácios e Igrejas, nas Artes decorativas que
embelezam vários estilos arquitetónicos, nas Epígrafes que nos
dizem quem mandou fazer ou relatam os mais variados episódios, o
discurso histórico "oficial". O discurso do poder, do Rei,
do Estado, da Igreja e dos Senhores. Uma visão das elites que é um
retrato parcial da Sociedade. O Graffiti Histórico é um documento
histórico que podemos chamar de "marginal". São as
impressões de quem não tinha posses para pagar Epígrafes ou quem
não sabia escrever. As gentes comuns, o povo, vocês e nós. Nas
paredes de Fortificações e Templo, nas portas e chaminés de Casas
comuns, nas Fontes e Moinhos, em afloramentos rochosos encontramos a
voz dos esquecidos. Incisos, desenhados ou picados na pedra, em
estuques, argamassa ou na madeira encontramos um sem número de
Grafitos. Estes representam preocupações do dia a dia, episódios
importantes ou trágicos, o medo do desconhecido, vaidades e
ansiedades tão comuns ao Homem. Deixo as palavras de Matthew
Champion sobre Templos em Inglaterra (Champion, 2015):
"....The coloured glass
of the medieval church window and the dull brasses laid to marble
upon the floor rarely carry images of peasant ploughing - they show
instead the rich lords of the manor in all their finery (…) The
images and texts that are inscribed into the very stones of the
church building can often tell us far more about the medieval people
who worshipped there than any amount of brightly coloured stained
glass (…) the medieval graffiti that we discover in churches today
tell us about all aspects of the medieval world. It tells tales of
grief and loss, of love and humour. At times, it speaks to us of
religious devotion and fear of damnation. It carries names of
long-dead children across the centuries, records happy days of
pageants and celebration...."
Infelizmente muito do
Graffiti está em risco de desaparecer. No espaço de uma ou duas
gerações pouco restará. Este importante registo é de difícil
identificação e dificílima interpretação. São riscos e
gravações muito ténues que se escondem da vista. O Graffiti quando
identificado é muitas vezes desvalorizado e interpretado como
brincadeiras de crianças, como momentos de ócio, tabuleiros de jogo
ou simples figuras geométricas e florais decorativas. Concordamos
que o Graffiti seja tudo isto. E todos estes aspetos da vida são
importantes merecendo registo e estudo. No entanto, temos vindo a
compreender que grande parte do Graffiti é muito mais. Esta
desvalorização do Graffiti enquanto documento e fonte histórica é
gravíssima. É urgente que se faça o levantamento do Graffiti
Histórico tão importante para a nossa Identidade Cultural. Por
vezes são as próprias obras de renovação dos monumentos a
destruir esta imensa fonte de informação. É urgente que o
acompanhamento de obras em monumentos ou edifícios históricos
tenham em conta o Graffiti Histórico.
O objetivo deste trabalho é
reunir a informação de vários sítios onde encontramos o marginal
Graffiti Histórico. Podemos depois comparar com alguma informação
que encontramos no discurso oficial. Cruzando toda esta informação
conseguimos identificar Ideogramas, as Categorias onde se enquadram,
a sua evolução para formas geométricas, as suas Funções, a
Frequência com que surgem, em que Suportes, o que representam e, se
possível, quando foram feitos.
I
Parte – O Peixe enquanto Graffiti e Ideograma
O Peixe faz parte da nossa
alimentação desde o Paleolítico. Hoje Portugal é conhecido pela
sua Gastronomia, pelos seus pratos de Peixe com destaque para as 1000
maneiras de cozinhar o Bacalhau. No Alentejo interior, longe do mar,
o peixe do Rio é mais frequente. Aqui, no Concelho de Alandroal,
onde fica a nossa Aldeia da Venda, temos o Festival anual do Peixe do
Rio. Uma festa da Gastronomia onde são apresentadas várias receitas
com Barbo, Sável, Lúcio-Perca e Carpa. Destacamos os mais
tradicionais como a Caldeta, uma sopa de peixe, ou o peixe frito. O
Alandroal fica na margem do grande Rio do Sul, o Guadiana, do
arábico, o “Vale da Deusa Ana”. O Guadiana faz parte da
Albufeira da Barragem de Alqueva. esta fechou as comportas em 2002 e
demorou 10 anos a encher até à cota 152 metros. A tradição da
pesca é antiga, o barco era a “Pateira”, usada para caçar
patos, para pescar com redes, ou armadilhas, e para atravessar as
águas. A sua forma apresenta grande estabilidade e permitia navegar
em leitos pouco fundo e cheios de obstáculos (Figura 2).
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| Figura 2 |
A força das águas era usada
em Moinhos que transformavam cereal e azeitonas em farinha e azeite.
Os Moinhos sempre foram pontos de encontro, de travessia de pessoas e
cargas, de contrabando e contrabandistas, de pescarias e “Adiafas”.
Os Moleiros eram também pescadores, montando as suas armadilhas nas
levadas. No Inverno, não havendo cereal para moer, os moleiros
investiam mais na pesca chegando a fazer disso negócio. Quando as
famílias traziam o cereal para ser moído era tradição o moleiro
oferecer uma caldeirada de peixe. Levar o cereal ao moinho era
desculpa para umas mini-férias à beira de água. Nos moinhos
encontramos muito Graffiti Histórico, traços incisos nos tijolos
onde se contavam os sacos de farinha, Tabuleiros de Jogo no chão
perto das portas onde havia mais luz, Relógios de Sol nas paredes,
Ideogramas Mágico Religiosos protegendo mós e várias partes do
Moinho.
Na Figura 3 apresentamos
a Casa do Moleiro e o Moinho do Lucas, na Ribeira de Lucefécit, no
Concelho de Alandroal. Nesta Ribeira encontramos vários Moinhos
sendo este um dos mais interessantes pela complexidade das estruturas
e pelo enquadramento paisagístico. Infelizmente o Moinho do Lucas e
Casa do Moleiro estão abandonados e em ruínas. Esta é a realidade
de grande parte do Património Molinológico do Alentejo. Felizmente
os Moinhos da Ribeira de Lucefécit foram alvo de um levantamento
efetuado pelo Ricardo Pacifico do Município de Alandroal.
Encontramos algum Graffiti Histórico no Moinho do Lucas, gente de
passagem que riscou nomes e datas no estuque. Na Casa do Moleiro, no
portal do lado esquerdo, vamos encontrar dois conjuntos de “Círculos
Concêntricos” com uma Função Apotropaica. Encontramos com
frequência “Círculos Concêntricos” em portais de edifícios
protegendo a casa do mal. Na fachada encontramos, inciso no estuque,
um Peixe de consideráveis dimensões. Não descartamos a Função
Apotropaica do Peixe enquanto Ideograma Mágico Religiosos. Falaremos
mais à frente sobre o Peixe no Cristianismo. No entanto, encontramos
aqui provavelmente uma Função Prática. O desenho do Peixe indica a
quem passa que o Moleiro, também pescador, tem Peixe para venda. São
vários os exemplos de Graffiti nas fachadas dos edifícios
anunciando o negócio que vamos encontrando na nossa região. Aqui,
na Aldeia da Venda, temos o Graffiti de dois sapatos em alto relevo,
no azul alentejano, na antiga casa do sapateiro.
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| Figura 3 |
Na Figura 4 apresentamos
o Moinho de Imersão de Entre-Águas no Concelho de Évora. É
alimentado pelo Rio Degebe que desagua no Guadiana. Os Moinhos de
Imersão eram construídos de maneira a resistir às frequentes
cheias. As Ribeiras no Alentejo são muito sazonais, chegando a secar
no Verão, enchendo com as chuvadas de Inverno. No interior do Moinho
de Entre-Águas, inciso no estuque, encontramos algum Graffiti
Histórico. Este refere-se a obras efetuadas em 1890 e indicando a
construção do Moinho em 1708. Encontramos também um Coração , ou
Fruto, ladeado por dois Peixes, com a data de 1842. Este Graffiti
pode celebrar alguma reconstrução, ou evento, que se deu nessa
data. Podemos também estar perante um Voto, pedindo algo aos Deuses,
relacionado com o Sagrado Coração de Jesus. Diretamente abaixo do
nosso Graffiti existia mais informação, esta poderia trazer alguma
luz mas infelizmente já não se consegue ler.
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| Figura 4 |
Vamos agora até à Vila
Castelo de Vide no Norte alentejano. Na parte velha desta Vila, no
Largo Dr. Frederico Laranjo, encontramos a Fonte da Vila. A partir
desta Fonte saem várias Ruas. No início da Rua Nova encontramos um
interessante Portal Manuelino. Picado no granito deste portal
encontramos um interessante conjunto de Graffiti Histórico (Figura 5).
Uma Epígrafe “MARUC(?) ME FECIT”, a letra “A” e um Peixe. A
inscrição diz-nos que alguém chamado “Maruc(?)” fez o portal.
Parece haver mais uma letra completando o nome mas não conseguimos
ler. Esta Epígrafe foi gravada provavelmente pelo canteiro que
lavrou o portal. Uma situação no entanto invulgar e pouco estética.
O “A” é um Acrónimo onde podemos ler “Avé Maria”, estando
o “M” dentro do próprio “A”. Quanto ao Peixe pode
desempenhar uma função Apotropaica ligado ao Cristianismo. No
entanto, pensamos tenha provavelmente uma função prática
indicando o que se vendia no estabelecimento comercial.
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| Figura 5 |
Castelo de Vide está na Rota
das Judiaria e nesta Vila encontramos uma interessante Sinagoga. Os
Judeus da Península Ibérica são os Sefarditas e “Sefarad”
significava “a terra distante”. Na Idade Média os Sefarditas
eram provavelmente 15% da população da Península Ibérica. Dentro
das tradições Sefarditas o Peixe simbolizava fertilidade,
prosperidade e proteção. O Peixe é parte importante da dieta dos
Judeus sendo comido em alguns dos seus feriados. Foram os Judeus
Sefarditas, expulsos da Ibéria, no fim do século XV, que levaram o
peixe frito para a Inglaterra. Na fé judaica para o Peixe ser
“Kosher”, obedecer às Leis da Torá em relação à alimentação,
tem que ter escamas e barbatanas. A Rua Nova, onde está o nosso
portal, fez parte da Judiaria de Castelo de Vide. Existe mesmo a
referência a vários ferreiros Cristão-Novos instalados nesta Rua.
Os Cristãos-Novos são Judeus forçados a converterem-se ao
Cristianismo no fim do século XV. Encontramos uma forte presença de
Judeus e Cristão-Novos no Largo da Fonte da Vila. O nosso portal é
considerado Manuelino o que aponta para finais do século XV e início
do século XVI. A nosso ver os Portais tardo góticos flamejantes
podem ser bem mais antigos que D. Manuel. O Peixe que encontramos
picado no granito tem as barbatanas muito bem demarcadas. Tudo isto
nos leva a pensar que o Largo da Fonte era uma Praça do Peixe. Em
Évora, a Praça do Sertório era a antiga Praça do Peixe, aqui
encontravam-se muitos negócios ligados a famílias de fé judaica.
Ainda em Évora, muito próximo da Praça do Peixe, tínhamos a
provável Sinagoga que é hoje a Igreja de Santiago. Em Castelo de
Vide encontramos uma situação semelhante com a Sinagoga muito perto
do Largo da Fonte. Pensamos que a gravação do Peixe tem uma Função
Prática, indica-nos a Peixaria, esta pode ser “Kosher”e
localizada numa provável Praça do Peixe. Esta é a nossa
interpretação de um Peixe gravado num portal e vale o que vale. No
entanto, queremos destacar a importância do Graffiti Histórico para
a compreensão de uma História que não está escrita.
Deixamos o Alentejo e vamos
até à Capital nunca esquecendo que o Alentejo é maior. Em Lisboa,
no exterior da Igreja do Convento do Carmo, encontramos dois peixes
picados no granito e trespassados por arpões (Figura 6). A
Igreja fazia parte do Convento do Carmo, mandado construir por D Nuno
Álvares Pereira em 1389. Este Convento foi afetada pelo tremor de
terra de 1755 mas não foi reconstruído. Hoje é Monumento Nacional.
uma ruína romântica que alberga o Museu Arqueológico do Carmo. O
Graffiti dos Peixes, uma cena bastante intensa, foi parcialmente
picada num silhar onde encontramos também uma Epígrafe. Não nos
parece que o Graffiti dos Peixes e a Epígrafe estejam relacionados.
Quanto aos Peixes pensamos que possam ter uma Função Votiva ligada
à Pesca. Pedindo aos Deuses uma boa pescaria provavelmente de Atum.
Posto isto, não podemos deixar de referir uma interessante história
que se passou no Carmo. Muito perto, no Largo do Carmo, encontramos o
Chafariz dos Golfinhos. Este monumento, do fim do século XVIII, foi
quase demolido em 1875 devido aos constantes conflitos entre
aguadeiros e moradores locais. Será que o Graffiti na parede da
Igreja do Carmo está relacionado com a Fonte? Estaremos perante dois
golfinhos trespassados por arpões? Um protesto dos moradores no
século XIX sob a forma de Graffiti. Quem sabe.
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| Figura 6 |
Apresentámos o Graffiti
Histórico de Peixes com Funções Práticas. Ressalvando que algumas
destas representações podem também ter uma Função Votiva. Em
qualquer dos casos o Graffiti representa efetivamente um Peixe.
Passamos agora a apresentar o Peixe enquanto Ideograma Mágico
Religioso. O Peixe teve sempre um papel na Mitologia e nas várias
Religiões que encontramos pelo Mundo fora. Representa Criação,
Fertilidade, Abundância, Sabedoria, é um Protetor e também um
Mensageiro. No Budismo vamos encontrar o Peixe no Ideograma que é a
“Pegada de Buda”. Na Polinésia a Via Láctea é “Ikaroa”, o
grande Peixe criador do Mundo. No Japão vamos encontrar o Peixe como
destruidor, o “Namazu”, causando tremores de terra. Na Índia o
Peixe foi o primeiro Avatar do Deus Vishnu e salvou o Rei Manu do
grande dilúvio, na Figura 7 em 1. Ainda na Índia um par de
Peixes representa Fertilidade. Este Ideograma, com um Báculo no
meio, foi usado pela Dinastia Pandya que reinou quase 2000 anos no
Sul da Índia, Na Figura em 2. No Zodíaco, o Círculo dos Animais,
encontramos também dois Peixes. No Egipto o Peixe representava
Fertilidade e Renascimento, estava associado à Deusa Hator e era
usado como Amuleto associado à Fertilidade. Parece que um Peixe
comeu o pénis de Osíris mas não vamos por aí. Na Mitologia
Irlandesa o Salmão representa a Sabedoria e surge no Livro de Kells.
Já falámos sobre o papel do Peixe entre os Judeus. Na Bíblia surge
em episódios do Antigo e Novo Testamento. No Cristianismo o Peixe é
um Ideograma que representa Jesus Cristo. Na Figura 8 apresentamos
alguns Cristogramas. Em 1 temos Peixe em Grego que se pronuncia
“Ichthys”. É considerado um Acrónimo traduzindo-se em português
como “Jesus Cristo Deus Filho Salvador”. Em tempos de
perseguições os Cristãos usavam o Ideograma do Peixe para se
identificarem. Em 2 vemos o “Chi Rho” ou “Chrismon”. Este
Ideograma resulta da união de duas letras Gregas o “X” e o “P”.
Sendo estas as duas primeiras letras da palavra “Cristo” em
grego. Por vezes surge representado com o “Alpha” e o “Omega”,
com o princípio e o fim, do alfabeto grego. Começou a ser usado
pelo Imperador Constantino, no século IV, numa batalha contra um seu
rival. Constantino teve um sonho em que Deus lhe disse para colocar o
Ideograma nos escudos dos seus soldados. O Imperador assim fez e
ganhou a batalha derrotando Maxentius. O Cristograma seguinte, uma
derivação do primeiro, é o “IX” ou “Cruz Batismal”. Neste
encontramos as letras “I” e “X” do alfabeto grego. Estas
representam as iniciais de “Jesus Cristo”. De seguida temos os
Ideogramas estilizados destes Cristogramas em círculos com seis e,
por vezes, oito raios. Em 3 encontramos o Anagrama “IHS” com um
Cruciforme. Este Ideograma significa, em Latim, “Iesus Hominum
Salvator” ou seja “Jesus Salvador dos Homens”. No século XVI,
os Jesuítas, adicionaram três pregos e colocaram o “IHS” dentro
do Sol, transformando este Cristograma no seu “Logo”.
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| Figura 7 |
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| Figura 8 |
Na Figura 9 vemos o
Ideograma “IHS” apresentado e o seu enquadramento num autêntico
oratório de Graffiti Histórico. Um oratório picado no mármore de
um dos cunhais da Igreja de Santa Maria, do século XVI, no Concelho
de Estremoz.
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| Figura 9 |
Vamos encontrar o Peixe, como
Ideograma Mágico Religioso, na Igreja de Santo António no Concelho
de Alvito (Figura 10). Aqui não está representado enquanto
Graffiti Histórico mas como um alto relevo. Não faz parte de um
discurso “marginal”, faz parte do discurso “oficial” de quem
construiu o Templo. É tão bonito que temos que mencioná-lo neste
trabalho. Foi gravado num silhar de granito de um dos cunhais da
Igreja, ao nível dos olhos, provavelmente para ser tocado. Pensamos
que desempenha uma Função Apotropaica protegendo o cunhal. Passar
uma esquina sempre foi problemático, nunca sabemos o que nos espera
do outro lado. São muitos os Ideogramas que encontramos protegendo
cunhais de vários tipos de edifícios. Na Figura 11 apresentamos
três exemplos de cunhais protegidos por Ideogramas. Em 1 vemos o
cunhal da Torre de Menagem do Castelo de Monsaraz. Aqui foi inciso no
granito um “M” invocando a proteção de Maria. Em 2 visitamos o
Convento de Jesus em Viana do Alentejo. Encontramos um cunhal
protegido por vários Cruciformes, apresentamos dois deles. Em 3
saltamos a fronteira e vamos a Espanha ao Castelo de Medellin. Aqui
encontramos um Ideograma Quadrangular protegendo um dos cunhais da
muralha. Este Ideograma é confundido, como aliás todos os
Ideogramas Quadrangulares, com um Tabuleiro de Jogo, um preconceito
que pretendemos desconstruir.
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| Figura 10 |
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| Figura 11 |
Voltamos a Portugal, damos um
salto a Évora e vamos visitar o Convento de S Francisco. Um Convento
que teve origens modestas com os Franciscanos no século XIII.
Transformou-se num Paço Real, no Convento de Ouro, nos séculos XV e
XVI. Aqui encontramos a famosa Capela dos Ossos forrada com as
ossadas de 5000 indivíduos. Chegámos a ter onze Capelas dos Ossos
no Sul de Portugal sobrevivendo seis até aos nossos dias. Três
estão no Alentejo, em Évora, Campo Maior e Monforte (Figura 12).
As outras três vamos encontrá-las no Algarve em Lagos, Alcantarilha
e Faro. Na Igreja de S. Francisco vemos um magnífico duplo Portal
Manuelino em granito e mármore. Neste encontramos o Brasão de
Portugal e as Armas dos Reis D João II e D Manuel. O interessante
Pelicano de D João II que se sacrifica pelas suas crias como o Rei
se sacrifica pelo seu povo. Uma tipica decoração Manuelina com
muitos motivos Vegetalistas, ligados ao Mar e aos Descobrimentos. No
Átrio do Templo vamos encontrar um interessante Peixe picado no
chão. Pensamos que tenha uma Função Apotropaica protegendo o
Templo da entrada do mal (Figura 13). A Igreja de S. Francisco
foi paga pelo Rei e desenhada pelos Arquitetos Reais. No entanto,
inclui alguns elementos que podemos associar à Religião Popular.
Vamos encontrar no Pórtico uma face esculpida num dos arcos. Um
Mascarão que também tem uma Função Apotropaica. Pequenos Mochos
escondem-se nas bases das colunas. Dentro do Graffiti Histórico
encontramos o referido Peixe, Cruciformes Votivos, uma “Covinha”
associada a Geofagia, um Ideograma Quadrangular provavelmente
associado às várias sepulturas que existiam em redor do Templo.
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| Figura 12 |
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| Figura 13 |
Na Figura 14 apresentamos
o Graffiti Histórico de Peixes que encontramos na Vila de Monsaraz e
arredores. Em 1 o Grafito encontra-se inciso no xisto do Adro da
Igreja de Nossa Senhora da Lagoa. Recentemente adicionaram uma
barbatana dorsal e transformaram-no num tubarão. Este Peixe teria
uma Função Apotropaica protegendo da entrada do mal. Muito perto
encontramos incisos alguns Tabuleiros de Jogo do Alquerque, um Pastor
com o seu cajado em forma de Báculo, Assinaturas e muito mais. Em 2
o Grafito encontra-se inciso no xisto da cobertura da Cisterna
medieval. Este espaço é chamado de Varandim pelos locais e aqui
realizavam-se os bailes noutros tempos. Este Peixe encontra-se
provavelmente associado ao Cristianismo. Sobre a porta que dá acesso
a esta Cisterna encontrámos uma inscrição que ainda não tivemos
oportunidade de decifrar. Esta inscrição pode-se referir à data de
construção da Cisterna. É de referir que dentro da Cisterna
observamos algumas estruturas. Segundo a tradição oral estas fariam
parte da antiga Mesquita. Em 3 e 4 apresentamos Grafitos incisos no
estuque da parede dos antigos Paços da Audiência. Um edifício do
século XIV que reunia Câmara, Tribunal e Cadeia. Os Peixes estão
debaixo do Fresco do “Bom e do Mau Juiz” do século XV. Em redor
deste Fresco encontramos muito Graffiti Histórico de que falaremos
mais à frente. Aqui os Peixes teriam uma Função Votiva pedindo a
ajuda dos Deuses nos assuntos a serem resolvidos. Em 5 saímos da
Vila de Monsaraz e vamos caminhar pela Serra dos Motrinos. Os nossos
Peixes da Serra dos Motrinos estão incisos num afloramento xistoso.
Estão muito bem desenhados com as escamas bem representadas. O Peixe
da direita parece ser uma figura antropomórfica ou representar
movimento como por vezes observamos na Arte Rupestre.
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| Figura 14 |
Recuamos agora até ao
período romano quando os telhados eram feitos com dois tipos de
telha: a Tégula e o Imbrex. Do Imbrex nasceu a telha portuguesa em
canudo. Apresentamos um fragmento de Tégula onde encontramos
gravados um Peixe e Ondulados (Figura 15). O Peixe é um
Ideograma que identifica alguém de fé Cristã. Os Ondulados são
provavelmente Serpentes ou Água, ou a Serpente enquanto Água,
representando Fertilidade e Renascimento. Não sabemos se esta telha
protegia um edifício ou se foi reutilizada em alguma sepultura.
Encontramos muito Graffiti Histórico nas coberturas, e tectos, de
edifícios religiosos. Uma tradição que remonta ao Antigo Egipto
onde encontramos muitas telhas com Ideogramas cobrindo Templos
famosos. Também encontramos muito Graffiti Histórico em contextos
funerários. Muitas elementos pétreos e cerâmicos usados na
estrutura de enterramentos são autênticas estelas funerárias. Este
fragmento de Tégula foi uma descoberta muito interessante nas
margens do Guadiana/Alqueva. Agradecemos a partilha da descoberta ao
nosso amigo Joaquin Larios Cuello.
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| Figura 15 |
Um Ideograma Mágico
Religioso muito interessante que temos vindo a encontrar é os “Três
Peixes” com a mesma cabeça. Na Figura 16 observamos pratos com
a representação de conjuntos de Peixes encontrados em túmulos do
Antigo Egipto. No prato do meio, com mais de 3000 anos, encontramos a
representação dos “Três Peixes”. Nestes pratos observamos o
Peixe “Tilápia” juntamente com a representação de “Lótus”.
Estes pratos eram depositados nos túmulos com oferendas e estavam
ligados ao renascimento do defunto. Segundo Annabel Galop esta será
a representação mais antiga do ideograma dos “Três Peixes”.
Esta investigadora afirma que esta representação gráfica tão
perfeita da unidade triplice acabou por ser apropriada por as grandes
Religiões do Mundo: Cristianismo, Budismo, Hinduísmo, Islamismo.
Apesar de nunca ter se tornado uma componente essencial e reconhecida
da respetiva iconografia religiosa. Por cá vamos efetivamente
encontrar este Ideograma no marginal Graffiti Histórico. Pode ter
chegado até aos nossos dias numa forma estilizada de que falaremos
mais à frente. Na Figura 17 apresentamos mais exemplos do
Ideograma dos “Três Peixes”, referidos por Gallop. Em 1
encontramos o Ideograma no Budismo indiano. Em 2 encontramos o
Ideograma num manuscrito da Indonésia dentro da corrente do Sufismo.
Em 3, agora na Europa, vamos encontrar os “Três Peixes” em
França. O Arquiteto Villar de Honnecourt inclui o Ideograma nos seus
desenhos no século XIII.
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| Figura 16 |
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| Figura 17 |
A primeira fortificação e
povoado de Monsaraz será provavelmente da Idade do Ferro. No século
XII. Geraldo Sem Pavor, esse terrível mercenário, terá conquistado
o Castelo Islâmico temporariamente. No século XIII, D Sancho II e
os Cavaleiros Templários, conquistaram definitivamente a
fortificação. A partir desta data a fortificação foi sendo
melhorada até à construção da Fortificação Abaluartada no
século XVII. O centro da fortificação medieval era a Torre de
Menagem, onde habitava o Alcaide. Na Alcáçova de Monsaraz, segundo
planta de Duarte de Armas, tínhamos os Armazéns, Estábulos, uma
Capela e uma Cisterna. Toda a Alcáçova era rodeada por uma muralha,
mais baixa, a Barbacã. Em volta de tudo isto ainda tínhamos um
fosso escavado no afloramento rochoso. Foi aqui que encontrámos pela
primeira vez o Ideograma dos “Três Peixes” (Figura 18).
Inciso no xisto, da parede do fosso medieval, encontrámos dois
conjuntos de “Três Peixes” associados a um Estreliforme e vários
Anagramas. Os Anagramas são “Avé Marias” e “Pais Nossos”. O
Estreliforme representa Maria enquanto estrela da manhã, o planeta
Vénus, enquanto Deusa que traz a luz do dia. Existe mais informação
neste Painel mas a leitura é difícil pois a patine é muito antiga.
Parte do Painel já foi destruído pela erosão. Podemos estar
perante Graffiti Histórico do século XIII. Na Figura 19 apresentamos outras Fortificações medievais onde surge o nosso
Ideograma dos “Três Peixes”. As muralhas da Vila medieval de
Vila Viçosa são um mundo de Graffiti Histórico. Este facto
relaciona-se certamente com a proximidade do Santuário de Nossa
Senhora da Conceição. As muralhas medievais foram renovadas nos
séculos XIII e XIV pelos Reis portugueses. Tivemos progressos na
guerra ofensiva, os canhões começaram a destruir as muralhas
medievais, estes progressos forçaram a avanços na guerra defensiva.
O Castelo de Vila Viçosa foi reconstruido, enquanto Forte, no século
XVI, segundo uma planta de Leonardo da Vinci. No entanto, parece que
partes do Castelo medieval sobreviveram dentro do Forte quinhentista.
Em 1 vemos do “Três Peixes” inciso no estuque das muralhas
medievais de Vila Viçosa. Em 2 temos os dois Ideogramas dos “Três
Peixes” incisos no xisto de Monsaraz. Em 3 voltamos a saltar a
fronteira e visitamos Badajoz. Nas muralhas medievais da Alcazaba de
Badajoz, do século XII, encontramos também os “Três Peixes”
inciso no estuque. Este Ideograma está realçado por um diferença
de tom na côr do estuque. Não sabemos se este pormenor é resultado
das recentes renovações das muralhas. Também não sabemos que
religião riscou este Ideograma em Badajoz. Pode ter sido ainda em
período Islâmico dentro da corrente do Sufismo. Pode ter sido
depois da Reconquista e já em período de domínio Cristão. É no
entanto o mais interessante dos Ideogramas dos “Três Peixes” que
conhecemos. O Ideograma dos “Três Peixes” é dos Ideogramas mais
antigos que relocalizámos. Os exemplos apresentados são
definitivamente da Idade Média. Representam uma Trindade, dentro do
Cristianismo a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
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| Figura 18 |
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| Figura 19 |
Descemos até ao Reino dos
Algarves e vamos visitar Albufeira. Aqui encontramos a Casa Bailote,
do século XVIII, profusamente decorada pela família Bailote
(Figura 20). Nas fachadas desta casa encontramos milhares de
conchas representando vários Ideogramas, entre eles encontramos os
“Três Peixes”. O Ideograma está um pouco alterado, os peixes já
não estão unidos. No entanto, é interessante encontrar esta
sobrevivência moderna. A decoração com conchas, ou Embrechados,
surge em vários edifícios portugueses, destacamos o Paço Real dos
Henriques na Vila de Alcáçovas do século XVI. No jardim do Paço
encontramos a espetacular Capela de Nossa Senhora da Conceição.
Esta está forrada, por dentro e por fora, com milhares de conchas
(Figura 21). As próprias conchas são, em si, um Ideograma que
representa Amor e Fertilidade. A partir da Idade Média as conchas
passaram a representar proteção na Peregrinação até Santiago de
Compostela. Hoje é o “Logo” de “El Camino”. As conchas da
Capela da Conceição formam vários Ideogramas sendo um deles a
“Roseta Hexapétala”. A nosso ver este Ideograma pode representar
“Seis Peixes”. O conjunto de Ideogramas da Capela formam uma
“Rede Apotropaica”. Estas “Redes” surgem sob diversas formas
no Alentejo. Vamos encontrá-las “oficialmente” e em meio urbano,
pintadas ou como Azulejos, nas fachadas e interior de vários tipos
de edifícios. No “marginal” Graffiti Histórico vamos
encontrá-las, tanto em meio rural como urbano, principalmente na
vertical. Surgem sob a forma de uma malha, onde traços verticais e
horizontais se cruzam por vezes de forma desorganizada.
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| Figura 20 |
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| Figura 21 |
Na Figura 22 vemos uma
“Rede Apotropaica” num afloramento xistoso da Ribeira do Alfragão
no Concelho de Alandroal. Esta surge associada a um par de botas como
que pedindo proteção para uma viagem. Estas “Redes” apesar de
verticais, e pouco organizadas, são com frequência interpretadas
como Tabuleiros de Jogo. Surgem muitas vezes riscadas em lajes de
xisto soltas sendo, de novo, interpretadas como Tabuleiros de Jogo.
Neste último caso podemos estar perante Estelas funerárias. As
nossas “Redes Apotropaicas” protegem vivos e mortos ou os vivos
dos mortos. As “Redes” quando surgem em edifícios estão
frequentemente nas ombreiras de portas e janelas. Na Figura 23 apresentamos uma “Rede Apotropaica” protegendo um chafurdo no
Concelho de Alandroal. As nossas “Redes” surgem também na forma
de “Desenhos a Compasso”, principalmente enquanto “Flor da
Vida”. As “Redes Apotropaicas” bloqueiam ou apanham o mal da
mesma maneira que os “Nós Eternos” que muitos Ideogramas formam.
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| Figura 22 |
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| Figura 23 |
Um belo exemplo de “Redes
Apotropaicas” encontramos na Arte Islâmica e nas suas complexas
construções geométricas (Figura 24). Vamos encontrar muitos
Ideogramas Mágico Religiosos escondidos na elaborada Arte Islâmica.
Deixamos as palavras de Cláudio Torres (2007):
"Um tal fascínio dos
artistas muçulmanos pela decoração geométrica intriga os
historiadores da Arte, que avançaram várias hipóteses. Para
alguns, terá sido o peso do tabu religioso sobre a representação
figurativa....Para outros, a importância conferida pelos muçulmanos
ao estudo da matemática e da ciência dos números.....Para os
partidários da influência do pensamento religioso e místico sobre
a mentalidade dos artistas, os traçados, nas suas formas infinitas,
refletiam o fundamento da crença na indivisibilidade de Deus. E para
os adeptos do simbolismo e esoterismo, cada figura geométrica
representaria um símbolo - os artesãos, agrupados em confrarias de
iniciados, conservaram o hermetismo dos códigos e o significado dos
símbolos".
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| Figura 24 |
II
Parte – O Peixe e os “Desenhos a Compasso”
Lentamente o Homem vai
compreendendo o Mundo que o rodeia. E começa a perceber que a
Natureza tem um “Código”, a Matemática. A forma mais visual e
com mais utilizações práticas da Matemática é a Geometria. Na
História do Homem as Ciências só muito recentemente se separaram
da Religião. As primeiras descobertas Matemáticas são como um
despertar para o “Código” dos Deuses. A Geometria é pode mesmo
ser considerada a “Arquitetura” dos Deuses. Uma Geometria Sagrada
a partir da qual tudo nasce. Não vamos desenvolver este vasto tema
dado a muitas leituras. Vamos concentrar a nossa atenção nos
Ideogramas Mágico Religiosos e nos Monumentos em que estes surgem.
Roubámos descaradamente a
designação desta categoria de Ideogramas a Matthew Champion (2015).
Este investigador escreveu o “Manual” do Graffiti Histórico que
nos despertou para o tema. O seu trabalho foca-se no Graffiti
medieval dos Templos ingleses. Segundo este autor, provavelmente a
tesoura foi o objeto mais usado para criar os “Desenhos a
Compasso”.
Os Ideogramas que encontramos
nesta categoria assumem geralmente uma Função Apotropaica. No
discurso oficial são a segunda categoria de Ideogramas que surge com
mais frequência. A primeira categoria é a dos Cruciformes. No
discurso marginal do Graffiti Histórico perdem a segunda posição
para os Estreliformes. Na Península Ibérica vamos encontrar estes
Ideogramas desde a Idade do Bronze. Apresentam grande continuidade
tendo sobrevivido até aos nossos dias. Nos exemplos que apresentamos
temos os “Desenhos a Compasso” que encontramos a “Montante”.
São os mais recentes que encontramos no Graffiti Histórico. Apesar
de surgirem num discurso marginal parecem ter sido aceites pela
religião vigente. São Sincretismos surgindo também no discurso
oficial. São também uma forma “Estilizada” de apresentar
Ideogramas mais antigos. Da origem, a “Jusante”, destes
Ideogramas falaremos num post futuro. Decerto que vamos ser
confrontados com muitas vozes discordantes.
Nas Figuras 25 a 27
apresentamos os Ideogramas Mágico Religiosos que surgem com mais
frequência na categoria de “Desenhos a Compasso”. Na Figura 25,
em 1, temos a forma
primordial do “Vesica Piscis”, do Latim, que se traduz como
“Bexiga de Peixe”. Na intersecção de dois Círculos nasce uma
forma que pode ser interpretada como a Bexiga de um Peixe, uma
Amêndoa, a “Mandorla” em Italiano, um Peixe propriamente dito,
um Útero ou uma Vulva. Encontramos aqui uma ligação ao nosso
Peixe. Encontramos também uma tentativa de “esconder”
representações femininas dentro de uma religião patriarcal. O
“Vesica Piscis” enquanto Útero ou Vulva representa Deusas
antigas, Fertilidade e Renascimento. Desde a Antiguidade encontramos
muitos Deuses representados dentro do “Vesica Piscis”. No
Cristianismo vamos encontrar várias representações de Jesus, e por
vezes de Maria, dentro do “Vesica Piscis”. Este Ideograma
simboliza a passagem para outro Mundo, o Renascimento. Numa
perspetiva mais prática temos Euclides de Alexandria no século IV
A.C. É considerado o Pai da Geometria e demonstrou a construção
de várias formas geométricas a partir do “Vesica Piscis”. Este
Ideograma é também a base para a construção dos arcos góticos.
Seria provavelmente muito usada na construção de edifícios
medievais. Vamos efectivamente encontrá-lo riscado em muitos Templos
enquanto Graffiti Histórico.
Em 2 voltamos ao Ideograma
dos “Três Peixes” agora estilizado. Este Ideograma surge
desempenhando uma Função Apotropaica na casa alentejana. Surge
também em cabeças de sepultura, por vezes associado a outros
Ideogramas, com a mesma Função Apotropaica. É também conhecido
como “Triquetra”. Aqui os “Três Peixes” surgem entrelaçados
formando um “Nó Mágico”. São muitos os Ideogramas que surgem
representados sob a forma de “Nó” reforçando a sua união e
Função Apotropaica. Na Idade do Ferro, para as Religiões ditas
Pagãs pelos Romanos, este Ideograma representaria as três faces da
Deusa. Com o Cristianismo passou a representar a Santíssima
Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
Em 3 temos os “Quatro
Peixes” um Ideograma que surge muito desempenhando Funções
Apotropaicas em chaminés alentejanas. Também vamos encontrá-lo
ligado ao Mundo Funerário. Este Ideograma é menos frequente no
Graffiti Histórico.
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| Figura 25 |
Na Figura 26,
em 4, apresentamos
várias formas de representar o Ideograma da “Roseta Hexapétala”.
Este é decididamente o Ideograma que surge com mais frequência
dentro da categoria dos “Desenhos a Compasso”. Desempenha
predominantemente uma Função Apotropaica e vamos encontrá-lo em
todos os tipos de suporte. Está por todo o lado fazendo parte do
discurso decorativo oficial. No marginal Graffiti Histórico vamos
encontrá-lo em vários suportes com destaque para os Templos. Temos
que ter em conta que é um ideograma que envolve alguma dificuldade
na gravação. Este Ideograma é identificado como uma Flor, na
Ibéria é por vezes associado a um Cardo, na Itália é o “Sol dos
Alpes” e na Noruega é a “ Rosa de Olaf”. Para culturas
Ibéricas e para os Romanos poderá ter representado Deuses Solares.
Existe mesmo a possibilidade de representar Jesus enquanto Sol. A
“Roseta Hexapétala” também é associada à Roda e ao Trovão no
Leste da Europa. Tal é a importância deste Ideograma que surge nas
bandeiras de algumas regiões da Europa. Posto isto pensamos que a
“Roseta Hexapétala” representa “Seis Peixes” e passamos a
apresentar os nossos argumentos:
- O Ideograma dos “Seis
Peixes” faz parte de uma continuidade na qual os Ideogramas vão
ficando cada vez mais complexos. A montante os “Três Peixes” até
ao nosso “Seis Peixes”. A jusante acrescentamos mais e mais
Peixes construindo a “Flor da Vida”. Uma imensa “Rede
Apotropaica”.
- Temos vindo a encontrar
algumas representações de “Seis Peixes” em que, pelo uso de
diferentes cores, se percebe que são dois conjuntos de “Três
Peixes”. Uma dupla Santíssima Trindade.
- O Peixe surge como a
representação de Jesus desde a antiguidade. Em Cristogramas mais
recentes, como o “Chi Rho”, surge com seis braços.
- O Peixe representa Jesus
como o princípio e o fim, o protetor, o mensageiro. Estes atributos
fazem todo o sentido na Função Apotropaica, e ligação ao Mundo
Funerário, dos “Seis Peixes”.
- O Peixe, enquanto Jesus, é
aceite pela Igreja instituição e surge com enorme frequência no
discurso oficial. É mesmo o Ideograma que encontramos com mais
frequência associado à Cruz Latina.
- Beleza Moreira (2019) na sua
obra apresenta uma cabeça de sepultura em que os “Seis Peixes”
surgem ainda com a barbatana caudal.
Por tudo isto pensamos que o
Ideograma Mágico Religioso conhecido por “Roseta Hexapétala”
representa “Seis Peixes”. Não descartamos a hipótese de ter
mais que um significado o que acontece com outros Ideogramas. Pode
também representar uma Vulva mas não vamos por aí.
Ainda na Figura 26 apresentamos, em 5, um Ideograma conhecido por “Semente da Vida”.
No Alentejo vamos encontrá-lo com frequência em Chaminés
desempenhando uma Função Apotropaica.
Em 6 temos então uma enorme
concentração de
Peixes, um autêntico
Cardume, aliás devia de ser este o nome do Ideograma. É no entanto
conhecido por “Flor da Vida” e surge principalmente em Portais de
Templos.
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| Figura 26 |
Na Figura 27 deixamos o
Peixe e passamos a apresentar outros Ideogramas desenhados a
compasso. Em 7 temos o Quadrifólio e o Trifólio, surgem muito como
molduras na Arquitetura e outras formas de Arte. No Alentejo vamos
encontrá-los com frequência em Chaminés. Nas Chaminés surgem como
molduras e também como Ideogramas Por vezes são representados como
Crescentes principalmente no Mundo Funerário em cabeças de
sepultura.
Em 8 temos o “Círculo” e
os “Círculos Concêntricos” surgindo ambos tanto no marginal
Graffiti Histórico como no discurso oficial. Encontramos o “Círculo”
com frequência em Templos por vezes com um ponto no centro. Aqui
assume uma Função Apotropaica ou Votiva. Vamos encontrar também
alguns “Círculos” incisos por cima de Frescos “Profanos” ou
Graffiti Histórico. Aqui assume uma Função de Ressacralização. O
“Círculo”, isolado ou com um ponto central, representa
provavelmente o Mundo de Deus ou proteção divina. Os “Circulos
Concêntricos” surgem com número variado de círculos, por vezes
com Raios, por vezes associados a outros Ideogramas. É um dos
ideogramas mais antigos e acompanha o Homem desde a Pré-História.
Provavelmente representa um caminho para o outro Mundo, para o Mundo
dos Deuses, para Deus. Os vários Círculos representam várias
dimensões umas dentro de outras. Na Arte Rupestre quando o
encontramos na horizontal pode ser um Altar. No Graffiti Histórico
surge com frequência protegendo a casa gravado em portais. Aqui
assume uma Função Apotropaica.
Em 9 temos a “Cruz Patada”
provavelmente associada aos Cavaleiros Templários. No entanto este
Ideograma tem sido gravado um pouco por todo o lado no discurso
“oficial”. Também surge no Graffiti Histórico com frequência
até recentemente. Encontramos uma “Cruz Patada” gravada no
balcão de xisto de um dos bares onde fazemos “pesquisa”.
Em 10 apresentamos o
“Lauburo” que em Basco quer dizer as “Quatro Cabeças”. Este
Ideograma é um simbolo do País Basco no entanto o Alentejo está
cheio de “Lauburus”. Pensamos que pertence à categoria das
Suásticas e representa quatro Serpentes. Por cá assume uma Função
Apotropaica principalmente me Chaminés. Na Figura observamos a
complexidade da construção deste desenho a compasso.
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| Figura 27 |
Na Figura 28 voltamos à
Inglaterra e visitamos a “Norfolk Medieval Graffiti Survey”. Esta
organização criou uma folha destinada a ajudar os voluntários na
identificação dos vários tipos de “Desenhos a Compasso”.
Podemos observar que todos os Ideogramas que encontramos por cá
surgem também na Inglaterra. Compreendemos assim que estes
Ideogramas fazem parte de uma linguagem conhecida por toda a Europa e
provavelmente universal.
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| Figura 28 |
Vamos agora visitar o
Santuário de “Cancho Roano” mesmo aqui ao lado na Extremadura
espanhola (Figura 29). Segundo alguns autores foi um Santuário
onde tínhamos prostituição sagrada mas não vamos por ai. Este
Santuário tem mais de 2500 anos e está ligado à Cultura
Tartéssica. Tartessos foi uma Cultura da Idade do Bronze-Ferro que
se desenvolveu à volta do estuário do Rio Guadalquivir. Foi um dos
primeiros grandes reinos da Ibéria, com a sua própria escrita e
rica em metais preciosos, principalmente o estanho. No Santuário de
“Cancho Roano” encontramos alguns Altares, no mais antigo temos
um Altar que parece representar um peixe, um belo exemplo de um
desenho a compasso do “Vesica Piscis”. Neste Santuário surgem
também pratos que nos fazem lembrar os pratos egípcios da Figura.
Muito interessante as influências do Egipto que chegaram tão perto
de nós.
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| Figura 29 |
Na Figura 30
observamos Estelas Funerárias de período romano. Nestas
encontramos o nosso Ideograma dos “Seis Peixes”. Aqui desempenha
uma Função ligada à proteção do defunto na viagem para o outro
mundo. Uma Função
ligada ao Renascimento.
Na Figura 31 apresentamos
Cabeças de Sepultura de período medieval onde vemos o Ideograma dos
“Seis Peixes”. Na Cabeça de Sepultura em destaque observamos
como o Ideograma dos “Seis Peixes” representa efetivamente
Peixes. Estes são representados com as barbatanas caudais e formam
dois conjuntos de “Três Peixes”. Desenho feito a partir de
Moreira (2019, p.141).
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| Figura 30 |
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| Figura 31 |
Na Figura 32, em 1, vemos
um lintel de um portal em Elvas. Encontra-se muito perto do renovado
Convento de S. Paulo. Neste lintel encontramos, gravados no granito,
o Ideograma dos “Seis Peixes”, o Pentagrama, e uma “Cruz
Patada”. A “Cruz Patada” é muito vezes associada à Ordem dos
Templários. Encontramos com frequência a “Cruz Patada”
associada ao Pentagrama em contextos medievais. Infelizmente o resto
do portal parece ser de período mais recente. Este lintel será
provavelmente uma reutilização de outro edifício. Os três
Ideogramas formam uma interessante “Fórmula Mágica”
provavelmente a trindade: Pai, Mãe e Filho ou Deus, Maria e Jesus.
Estes Ideogramas protegem a casa da entrada do mal. São muitos os
Ideogramas que encontramos em portais e janelas protegendo a casa do
mal. Gostava de frisar que nada têm a ver com Judeus ou
Cristãos-Novos.
Na mesma Figura 32, em
2, observamos a moldura de uma janela, em Espanha, com
dezoito Ideogramas dos “Seis Peixes”. Um imenso Cardume
protegendo a casa do mal.
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| Figura 32 |
As chaminés no Alentejo são
verdadeiras obras de arte. A chaminé alentejana é o centro da casa,
o local de reunião da família, onde se cozinha, come e contam
histórias. O resto da casa desenvolve-se em volta da chaminé, por
vezes só mais uma divisão. Quando se construía uma nova casa era
importante saber quantos dias de chaminé se encomendavam ao
construtor. A “Chaminé de Escuta” tem base e tronco prismático
retangular. A saída dos fumos é coberta com diferentes construções
em telha. Estas chaminés são chamadas de “Escuta” ou “Espia”
porque quem está dentro de casa consegue escutar as conversas de
quem está na rua. Estas chaminés escondem muita informação,
vários tipos de decoração onde encontramos objetos em cerâmica,
datas, iniciais dos proprietários, o que se vendia ou fazia no
edifício e muitos Ideogramas Mágico Religiosos. A Função destes
Ideogramas nas Chaminés de Escuta alentejanas é Apotropaica. A
mesma tradição surge um pouco por toda a Ibéria. Em algumas
chaminés a Norte temos espetaculares “Espanta Bruxas”. Por cá
encontramos cântaros em cerâmica no topo das chaminés que serviam
para dar água às Bruxas. Sempre essas malvadas bruxas. Encontramos
datas a partir do fim do século XVII. O Ideograma que encontramos
com mais frequência é o Cruciforme enquanto Cruz Latina. O segundo
Ideograma que encontramos com mais frequência são os “Seis
Peixes”. Este surge muito associado à Cruz Latina ou ao “Lauburo”,
surge sozinho ou na forma de “Semente da Vida”.
Na Figura 33 podemos
observar os “Desenhos a Compasso” que surgem pintados em
“Chaminés de Escuta” alentejanas. Vemos também os diferentes
conjuntos de Ideogramas que surgem com mais frequências. Estes
conjuntos são autênticas “Fórmulas Mágicas”. A Cruz Latina
nunca se repete na mesma Chaminé. O Ideograma dos “Seis Peixes”
por vezes repete-se na mesma Chaminé, já encontrámos oito
repetições numa mesma Chaminé. Só encontramos um exemplo da “Cruz
Patada” numa Chaminé do século XIX. Na Figura 34 vemos outros
Ideogramas desenhados a compasso que encontramos em Chaminés
alentejanas com menos frequência.
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| Figura 33 |
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| Figura 34 |
Na Figura 35 vamos encontrar duas fachadas de edifícios pintadas
com o Ideograma dos
“Seis Peixes”. Estes edifícios ficam em S. Jorge de Alor
no Concelho de Olivença. Aqui
encontramos também muitas Chaminés de Escuta protegidas por
Ideograma Mágico Religiosos. Olivença faz parte de Portugal, e de
Espanha, mais de dois mil Oliventinos têm hoje dupla nacionalidade.
Os “Seis Peixes” são o Ideograma que surge com mais frequência
na decoração/proteção “oficial” de todo o tipo de edifícios.
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| Figura 35 |
Na Figura 36 vemos a
parte superior de dois cunhais de montes alentejanos. Nestes
encontramos o Ideograma dos “Três Peixes” numa forma
“estilizada”. Aqui foi desenhado a compasso em alto relevo no
estuque do edifício. Este Ideograma protege o cunhal, e a esquina,
num sítio mais vulnerável. Em 2 o Ideograma é mais elaborado mas
ainda não descobrimos o que representa o pequeno penduricalho.
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| Figura 36 |
Na Figura 37 apresentamos o Ideograma dos “Seis
Peixes” em jambas e ombreiras
de edifícios públicos dos séculos XVIII e XIX. Aqui já entramos
no mundo marginal do Graffiti Histórico. Em 1 e 2 temos os “Seis
Peixes” na jamba de uma janela e na ombreira de uma porta de Vila
Viçosa. Em 3 e 4 vamos encontrar o nosso Ideograma em ombreiras de
portas no Alandroal. Aqui estão associados a flores e num dos casos
parece formar um “Vesica Piscis”. Todos os exemplos dados
enquadram-se na categoria dos “Desenhos a Compasso” e estão
incisos
no mármore. A durabilidade do mármore permitiu a sobrevivência de
muito Graffiti Histórico até aos nossos dias.
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| Figura 37 |
Em Montoito, Concelho de
Redondo, encontramos um Moinho de Vento abandonado. No portal do
Moinho temos dois Ideogramas protegendo da entrada do mal. Desenhados
a compasso no estuque vemos um “Lauburu” associado aos “Seis
Peixes” (Figura 38). Nos Moinhos de Vento encontramos muitas
Cruzes Latinas na parte superior do portal, por vezes com a data de
construção do Moinho, também com uma Função Apotropaica.
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| Figura 38 |
Na Figura 39 observamos
um belo Colmeal, com 200 anos, numa Herdade alentejana. Neste Colmeal
encontramos 27 Ideogramas Mágico Religiosos desenhados a compasso.
Estão pintados na parede interior a vermelho, laranja e amarelo. As
abelhas estavam muito bem protegidas do mal. O casão onde se
guardavam as ferramentas encontra-se também protegido com dois
cruciformes, incisos no estuque, ladeando a porta. Neste Colmeal
temos 4 Ideogramas dos “Seis Peixes”, 5 Ideogramas com “Círculos
Concêntricos”, 1 Ideograma dos “Três Peixes”, 2 Cruciformes,
um deles uma “Cruz Patada”, 2 “Cálices”, 1 “Crescente”,
1 Hexagrama, 1 Ideograma Triangular, 4 Losangos, 4 “Círculos e 2
Ideogramas que não conseguimos identificar. Uma imensa “Fórmula
Mágica” destinada a proteger as abelhas enquanto produtoras de mel
e polinizadoras, do pomar e horta, que se encontram nas proximidades.
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| Figura 39 |
No Paleolítico o Homem era
Animista, via todos os elementos naturais como tendo espírito, tudo
estava ligado. A mãe Natureza era "o todo" manifestando-se
nas pedras, árvores, rios e até nos fenómenos naturais. O Homem do
Paleolítico explorava imensos territórios movendo-se anualmente por
autênticas Paisagens Sagradas. Precisava de marcos territoriais que
pela sua forma ou localização se destacassem nesta paisagem. Estes
orientavam, e justificavam, as migrações dando um sentido de
pertença a este imenso território. As “Rochas Sagradas” são
Altares e Capelas onde podemos falar com os Deuses e com os
Antepassados. Estas tradições do Animismo tiveram grande
sobrevivência no Alentejo dentro da Religião Popular.
Deixamos as palavras de Calado
(2004, p.166) sintetizando a importância das Rochas Sagradas para as
sociedades de caçadores-recoletores:
“(...) a sacralização dos
acidentes naturais mais importantes, entre os quais se inscrevem os
afloramentos rochosos mais eminentes, está perfeitamente atestada em
inúmeras ocorrências arqueológicas e etnográficas, quer em termos
genericamente rituais, quer em contextos funerários. É, sobretudo,
nas sociedades com maior mobilidade, com são, por regra, os
caçadores-recolectores, que os marcadores naturais das paisagens
ganham importância acrescida (…)”
Em S. Pedro do Corval, no
Concelho de Monsaraz, encontramos uma espectacular “Rocha Sagrada”,
a “Rocha dos Namorados” ou “Pedra do Casar” (Figura 40).
Este é
único monumento do
tipo musealizado em Portugal. Parabéns a todos os envolvidos. A
“Rocha dos Namorados” é um bloco pedunculado, um afloramento
granítico desgastado pela erosão, há uns milhões de anos foi
lava. A sua forma, como que nascendo da terra, a sua localização, a
maneira como se destaca na paisagem
fizeram dela “Sagrada”. São várias as Rochas, Barrocas e
Penedos dos Namorados que surgem na Ibéria e por esse Mundo fora.
Sobreviveram vários rituais na “Rocha
dos Namorados” de
S. Pedro do Corval. Nesta
Rocha encontramos
várias “Covinhas” ligadas a rituais de Geofagia, ao consumo de
minerais. Raspava-se a Rocha e consumia-se o pó da pedra em busca de
Fertilidade.
Mais ao menos como hoje tomamos compridos com vários tipos de
minerais. Em S, Pedro do Corval os defuntos são velados no Santuário
de Nossa Senhora do Rosário e partem depois em cortejo fúnebre para
o cemitério. No meio deste trajeto havia a tradição de parar na
Rocha dos Namorados para desejar uma boa viagem ao falecido. Um
ritual, acima de tudo, de
Renascimento. Em tempo de Seca realizavam-se procissões que paravam
na “Rocha dos Namorados” para pedir água aos Deuses. O ritual
mais conhecido realiza-se na segunda-feira de Páscoa. As raparigas,
em idade casadoira, com as costas voltadas para a Rocha, andam sete
passos e, com a mão esquerda, atiram pequenas pedras para o topo da
Rocha. O número de tentativas, até à pequena pedra ficar no topo
da Rocha, é o número de anos que faltam para casarem. Existe mesmo
uma lenda para explicar este ritual: “Uma
rapariga que ali namorava às escondidas com o seu amado. Descoberta
pelo pai, viúvo, convenceu-o de que atirando de costas uma pedra
ficaria a saber se casaria nesse mesmo ano. O pai assim fez, ficando
no topo a sua pedra. O vaticínio cumpriu-se, pois ele casou nesse
ano com uma bela jovem. A filha pôde assim continuar livremente o
seu namoro.” (Almagro-Gorbea e Torres, 2015, p18 e 19). Existem
outras versões do atirar da pedra: só se pode tentar três vezes,
os rapazes também podem tentar…..O importante é que os Rituais na
“Rocha dos Namorados”
ainda estão vivos. No outro dia fomos tirar fotos à Rocha e uma mãe
com o filho, um rapazinho de uns 10 anos, aguardavam
à distância. Fomos dizer à senhora que podíamos terminar as fotos
depois. Enquanto o
rapaz visitava a Rocha, a
senhora explicou o que
se passava, o
rapaz ia à Rocha pedir
uma namorada. Muito interessante e
era bom que fosse assim tão fácil. A “Rocha dos Namorados” tem
gravada uma
“Caraça” que nos olha do alto. Encontramos muitas “Caraças”
e “Mascarões” protegendo Castelos, Templos e até casas comuns
em meio urbano. Aqui representa provavelmente o “Espirito” que
habita a Rocha. Na “Rocha dos
Namorados” foi também
picado
algum Graffiti Histórico na forma de Iniciais
e Cruciformes. Desempenham provavelmente uma Função Votiva pedindo
o favor dos Deuses. Dentro do
discurso “oficial” foi gravada, em alto relevo, uma enorme Cruz
Latina ladeada por 6
Ideogramas dos “Seis Peixes”. Representam
uma (re)sacralização
por parte da religião
vigente desta “Rocha Sagrada”.
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| Figura 40 |
Voltamos a caminhar pelas
Serras de Monsaraz. As Serras em redor de Monsaraz são um Museu do
Graffiti Histórico. Nos afloramentos xistosos temos dezenas de
Núcleos e Painéis onde encontramos milhares de Grafitos e
Ideogramas. O xisto era o “Papel” de outros tempos onde se
escrevia e desenhava. Surgem vários Ideogramas associados num mesmo
Painel. Por sua vez encontramos vários Painéis associados que
formam Núcleos. Estes, por vezes, marcam Santuários, Abrigos,
Caminhos e Fronteiras. Ainda temos muito trabalho nas Serras de
Monsaraz, infelizmente é uma corrida contra o tempo e contra as
máquinas. Na Figura, em
2, apresentamos uma amostra, apenas 3 Painéis incompletos,
dos Grafitos e Ideogramas da Serra da Pedras em Monsaraz. Na mesma
Figura 41, em 1, vemos um par de Cruciformes picados no xisto.
Por cima destes foi inciso, na Figura a azul, uma Cruz Patada
desenhada a compasso.
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| Figura 41 |
Vamos agora visitar uma
Fortaleza construida por Júlio César. No Concelho de Alandroal
encontramos a espetacular Juromenha. Aqui encontramos uma
Fortificação Abaluartada do século XVII, dentro desta temos os
Castelos medievais Cristão a Islâmico que foram construidos com
pedras das Fortalezas Visigoda e Romana. Um autêntico manual da arte
de fortificar nos últimos 2000 anos. Aconselhamos a Visita Guiada
gratuita todos os Domingos de manhã às 10 horas. Nas paredes de uma
das Cisternas de Juromenha, incisos no estuque da parede, temos
vários Grafitos. Os mais antigos destes podem ser de período
Islâmico. Dentro da Fortaleza encontramos a Igreja de Nossa Senhora
de Loreto do século XVIII. A fachada deste Templo está fortemente
protegida com vários Ideogramas Mágico Religiosos (Figura 42). Entre eles
encontramos os Ideogramas desenhados a compasso dos “Seis Peixes”,
do “Lauburo” e da “Cruz Patada”. Os “Seis Peixes” estão
pintados no estuque protegendo um pequeno nicho. Os 6 “Lauburus”
estão também pintados no estuque protegendo uma das janelas e uma
das portas. A “Cruz Patada” está gravada no granito da ombreira
de um dos portais. No mesmo portal encontramos também um Pentagrama.
Na fachada ainda vamos encontrar Volutas, os símbolos da Ordem de
Avis, um Cruciforme e a data de 1743.
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| Figura 42 |
Na Figura 43
vamos visitar a Vila de
Terena no Concelho de Alandroal. Terena é Vila desde o século XIII,
aqui encontramos um Castelo do século XIV e uma espetacular Igreja
Fortificada também do século XIII. Esta enquanto
Igreja de Santa Maria é referida
nas Cantigas de Afonso X do
século XIII. Hoje é
o Santuário de Nossa
Senhora da Boa Nova onde
acendemos velas pedindo proteção para as nossas filhas. Em Terena
encontramos também a Igreja Matriz de S. Pedro, do século XIV, no
topo do afloramento xistoso. Nos bancos do exterior deste Templo
temos muito Graffiti Histórico inciso
no xisto (Figura).
Em 2 encontramos
o Ideograma dos “Seis Peixes” associado a vários Estreliformes.
Em 3 observamos
o “Vesica Piscis” associado a uma mão, a um Ideograma
Quadrangular e a um Compasso. Não só desenharam o Ideograma com um
Compasso como ainda o representaram. Em
1 vemos uma Tesoura e
várias Lâminas. Todos estes Ideogramas representam Votos onde se
pede algo aos Deuses. A Mão representa um dos indivíduos que gravou
os
Votos. A Tesoura e Lâminas servem
para “Cortar o Mal”.
Encontramos muitas Mãos
e Pés
desenhados
em Templos, também em poços, associadas a Lâminas.
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| Figura 43 |
Vamos agora dar um saltinho
ao Concelho vizinho de Reguengos de Monsaraz. Muito
perto da Aldeia do Campinho encontramos a Ermida de Santo Amaro. Esta
Ermida encontra-se num caminho antigo, nas redondezas temos muito
Megalitismo e uma Vila de período Romano. Uma autêntica Paisagem
Sagrada. Encontramos muito Graffiti Histórico, inciso no xisto,
principalmente no pórtico da Ermida. Na Figura 44
em 1 apresentamos algum deste Graffiti. Uma Lâmina para “Cortar o
Mal”. A sola de um sapato com as proteções e pregos bem
representadas. Provavelmente pedindo
a proteção para quem iniciava uma jornada. Três Círculos
Concêntricos que se entrelaçam pedindo a proteção divina. Em
Terena encontrámos Lâminas associadas a uma Mão aqui encontramos
uma Lâmina associada a um Sapato ou Pé. Estamos perante uma Função
Votiva que encontramos com frequência nos pórticos, adros e bancos
de Ermidas. Destacamos
uma interessante Serpente pintada no interior do Monte que
apresentamos na
Figura44 em 2. No
xisto da Ermida, e do Monte anexo, encontramos muito mais informação
entre Graffiti e Ideogramas Mágico Religiosos.
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| Figura 44 |
Visitamos
agora o
Castelo Medieval de Monsaraz, provavelmente de origem Islâmica, o
Castelo que
vemos hoje terá sido
renovado por D. Dinis no século XIV. Na Figura 45
apresentamos a Porta da Vila, em 2 vemos, gravadas
do lado de dentro do portal em baixo relevo, as
Medidas Medievais da Vara e do Côvado, Os Mercadores
que se deslocavam a Monsaraz tinham que respeitar as medidas locais.
Vamos encontrar mais Medidas na Praça D. Nuno gravadas
nos Paços da
Audiência. Ainda na Porta da Vila, além das oficiais placas
comemorativas, encontramos muito Graffiti Histórico. Em 1 vemos
vários Ideogramas com Funções Apotropaicas: picado
no xisto temos um Cruciforme semelhante à Cruz da Ordem de Cristo;
encontramos Ideogramas
Quadrangulares incisos
no xisto na vertical; temos
também inciso no xisto um
pequeno Círculo que pode ter sido o Ideograma dos “Seis
Peixes”. Em 3 vemos uma cena referente à Tourada e um interessante
Pássaro incisos no
xisto. Em ambos os
casos estamos perante Graffiti Histórico
com uma Função Lúdica.
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| Figura 45 |
Em
Monsaraz caminhamos até
à Praça D. Nuno onde
encontramos o centro
monumental da Vila. Esta Praça é um Museu de Graffiti Histórico
onde temos:
Marcas de Afiar, Marcas de Canteiro, Tabuleiros de Jogo, Assinaturas,
Datas, várias Categorias de Ideogramas Mágico Religiosos e os
muitos dos nossos
Ideogramas desenhados
a compasso.
Na Figura 46 destacamos
alguns destes Ideogramas incisos
no xisto de Edifícios Públicos e Templos. Em 1 vemos um
interessante “Seis Peixes” dentro de vários “Círculos
Concêntricos”. Este está desenhado na ombreira de um portal de
uma casa associada aos antigos Paços da Audiência. Em 2 temos o
“Seis Peixes” simples que surge nos Templos da Praça D. Nuno.
Vamos encontrá-lo na ombreira do portal da Igreja da Misericórdia
do século XVI. Vamos encontrar vários na Igreja Matriz de Nossa
Senhora da Lagoa também do século XVI. Na Matriz surgem
principalmente na fachada e nos portais. Nos contrafortes da Matriz
encontramos vários círculos
picados
no xisto. Estes estão a uma altura considerável podendo ter sido
feitos quando
da construção, ou de uma reconstrução, do monumento. Os
Ideogramas “Desenhados a Compassso” que encontramos nos Portais
da Praça D. Nuno desempenham uma Função Apotropaica.
Aqueles
que encontramos nas
fachadas terão provavelmente
uma Função Votiva. Outro pormenor interessante da Matriz está na
cobertura danificada pelo tremor de terra de 1755. Na sua
reconstrução foram usadas tampas de sepultura de
xisto que estavam no
interior do Templo. Este uso,
além de prático e expedito, pode ter também uma Função Ritual.
Encontramos muitas placas de xisto, com
Ideogramas, reutilizadas,
em coberturas de vários
Templos. Estas Placas
podem ter estado em sepulturas desempenhando uma Função de
Apotropaica.
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| Figura 46 |
Em Monsaraz temos vários Monumentos com a porta aberta todo o ano.
De forma gratuita podemos visitar a Igreja da Misericórdia e a
Igreja de
Santiago. Esta última está dessacralizada e é
hoje um espaço para exposições. Pelo valor simbólico de 1 euro
podemos visitar o Museu do Fresco e a Casa da Inquisição hoje
um Museu para todas as religiões.
Também é
possível visitar a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Lago graças ao
voluntariado de uma moradora de Monsaraz. Este Templo foi
recentemente restaurado e podemos contribuir para este investimento,
de 2 milhões de euros, deixando um donativo simbólico.
Vamos agora
visitar o Museu do Fresco nos
antigos Paços da
Audiência. Este edifício
do século XIV era a Câmara Municipal, o Tribunal e a Cadeia. Quando
da requalificação do edifício, atrás de uma parede de tijolo, foi
redescoberto um espetacular Fresco (Figura 47).
Neste Fresco, do século XV, encontramos Jesus Cristo, num
painel superior,
ladeado por dois profetas mostrando o Alfa e o Ómega, o princípio
e o fim. Num painel inferior observamos dois Juízes,
um Bom
e um Mau.
O Bom
Juiz encontra-se coroado por
dois anjos representando a proteção divina. Este veste-se com a
pureza do branco e segura a vara da justiça. O Mau Juiz tem duas
faces, uma delas ouve o conselho do Diabo que surge sobre os seus
ombros. O Mau
Juiz veste-se de Dourado, senta-se num trono opulento e tem a vara da
justiça quebrada. Este
Juiz segura, na sua mão esquerda, várias moedas de ouro recebidas
de um rapaz que se
abeira do
trono com a bolsa cheia
de moedas.
A mão direita, do Mau
Juiz, está estendida
para outro rapaz que lhe entrega “Perdizes”.
As Perdizes eram uma
forma , e expressão, relacionada com suborno. Encontramos esta
referência na peça, do século XV, do “Auto
dos Infernos” de Gil Vicente: “(…)
veio um Corregedor,
carregado de feitos, que quando chegou ao batel do Inferno, com sua
vara na mão, chamou o barqueiro. O barqueiro ao vê-lo, fica feliz,
pois esta seria mais uma alma que ele conduziria para o fogo ardente
do Inferno. O Corregedor era um amante da boa mesa e sua carga era
qualificada como "gentil", pois tratava-se de processos
relativos a crimes, que era um conteúdo muito agradável para o
Diabo. Ele era ideal para entrar na barca do Inferno, pois durante
sua vida, ele era um juíz corrupto e que aceitava perdizes como
suborno.”. O
Fresco do “Bom e do
Mau Juiz”
destinava-se
a explicar como um Juiz se devia de comportar. Em tempos que poucos
sabiam escrever ou ler, e ainda não existiam aulas de Ética, as
representações gráficas eram importantes. Na
Figura, em 1, apresentamos algum do Graffiti
Histórico que
encontramos inciso no
estuque da parede debaixo
do Fresco.
Temos
Peixes, Serpentes e vários Ideogramas Mágico Religiosos. O
Pentagrama e
o Ideograma Quadrangular parecem ter uma Função Votiva. Estas
Categorias de ideogramas com
o tempo deixam de ser
aceites pela religião
vigente. Começamos a encontrá-los com
mais frequência na
Religião Popular. Os
Peixes também têm
uma Função Votiva. Encontramos
um Círculo
desenhado a compasso que parece “apanhar” um dos Peixes.
Tanto os Peixes como
Círculo
são
uma ressacralização de todo este Graffiti Histórico. As Serpentes
aqui representam provavelmente o mal. Um dos Pássaros parece mesmo
comer uma das Serpentes. Uma
“Cena” que representa
o triunfo do dos Céus sobre o mundo inferior ou do bem sobre o mal.
Como exemplo, vemos em
2, um Pássaro comendo
uma Serpente, gravada
no mármore, de uma Fonte de Évoramonte. Os outros Pássaros podem
representar o “Espirito Santo” numa Função Votiva. Estes
Pássaros podem também representar “Perdizes” apontando para
um Juiz corrupto, dizem as más línguas. Na parede dos Paços da
Audiência encontramos um documento muito interessante, Quem trazia
os seus problemas ao Juiz de Fora, há 500 anos, deixava as suas
preocupações, preces e queixas gravadas na parede.
 |
| Figura 47 |
Na Figura 48
visitamos o Concelho de Vila
Viçosa onde encontramos a abandonada Ermida de Nossa Senhora do
Paraíso. A Ermida que vemos hoje é datada do século XVII.
Localiza-se numa Paisagem Sagrada de grande beleza natural com
afloramentos rochosos imponentes e com muita água. Aqui encontramos
uma ponte antiga, fazia parte de um caminho, temos também várias
Capelas e Altares escavados na rocha. Um
local onde viveram
Monges Eremitas e onde os Calipolenses celebravam a Páscoa. Hoje
ainda se pede a proteção dos animais na Ermida de N.S. do Paraíso.
Numa das nossas visitas fomos encontrar oferendas de Cornos e uma
Cabeça de Cabra no Altar. Na parede do altar vemos também
as marcas deixadas pelo queimar de velas. Um lugar sagrado que ainda
está vivo para a população local. Na ombreira do portal que dá
acesso à Sacristia encontramos, incisos
no estuque, três conjuntos de “Círculos
Concêntricos” desenhados a compasso. Aqui desempenham uma Função
Apotropaica.
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| Figura 48 |
No centro urbano de Vila
Viçosa encontramos muito Graffiti Histórico. Destacamos as muralhas
da Vila Medieval, do
século XIII, onde encontramos muitos
Votos e Ex-Votos. Na Vila fora de muralhas, dos séculos XVI a XIX,
encontramos muitos Ideogramas incisos,
picados e desenhados
no mármore dos portais.
O levantamento de Cruciformes
começou com a estimada Professora Carmen Balesteros e teve
continuidade com a Investigadora do Município Margarida Borrega.
Estamos a construir uma Base de Dados, e respetivo Mapa, que
permitirá aos interessados pelo tema, e visitantes, conhecerem este
Património escondido à vista de todos. Na Figura 49,
em 1,
apresentamos os Cruciformes e
Relógio de Sol que encontramos em apenas
um dos portais.
Em 2 vemos o
levantamento parcial
dos Ideogramas Quadrangulares incisos
no estuque da muralha medieval. Em 3 apresentamos um
Cruciforme, picado
no mármore, da
base do Pelourinho quinhentista de Vila Viçosa. Este Ideograma é
especial pois foi encontrado pela nossa filha de sete anos.
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| Figura 49 |
Ainda em Vila Viçosa vamos
visitar a Igreja do Convento dos Agostinhos. Este monumento foi
construído no século XIII, renovado no século XVI e transformou-se
no Panteão dos Duques de Bragança no século XVII. Na Figura 50,
em
1,
vemos dois Ideogramas
desenhados
a compasso
que guardam o portal
lateral do Templo. No exterior deste
monumento encontramos muito Graffiti Histórico inciso
e desenhado no mármore.
No interior do Templo temos também muito Graffiti desenhado a
carvão. Em 2 apresentamos uma coluna desenhada a carvão que se
enquadra na Categoria da “Traçaria”. Estudos que acompanhavam as
obras dos monumentos e por vezes sobrevivem até aos nossos dias.
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| Figura 50 |
No Concelho de Viana do
Alentejo encontramos
a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Anunciação. Este Templo do
século XVI apresenta um espetacular Portal
Manuelino.
Na calçada, em frente
do portal, vamos
encontrar o Ideograma desenhado a compasso da “Flor da Vida”
(Figura 51).
Um intrincado trabalho construído em
Calçada
Portuguesa.
O Templo fica dentro do Castelo Medieval, do século XIV, onde
encontramos dezenas de Cabeças
de Sepultura
reutilizadas. Existia um imenso
cemitério medieval em volta da Igreja Matriz que foi destruído para
construir o Castelo. Na
Figura deixamos dois exemplos de Cabeças de Sepultura reutilizadas
nas Seteiras do Castelo.
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| Figura 51 |
Vamos agora visitar a
Cidade de Évora
que é Património
da Humanidade desde 1986. No topo
de Évora encontramos a Sé
Catedral, dedicada a
Nossa Senhora da Assunção e consagrada no século XIII.
Na
Figura 52
apresentamos
o pórtico da Sé de Évora com seu espetacular Apostolado em
mármore. Em 1 vemos
dois Ideogramas desenhado
a compasso, incisos
na madeira da porta, do
lado de dentro. Temos
uma “Cruz Patada” e
uma interessante
“Flor da Vida”.
Ambos
os Ideogramas têm
uma Função Apotropaica portegendo
o Templo da entrada do mal.
Em 2
observamos “Círculos”
Concêntricos” e o “Vesica Piscis” incisos
no granito do exterior.
Estes Ideogramas têm provavelmente
uma Função Votiva.
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| Figura 52 |
A Sé é um Museu de Graffiti
Histórico onde encontramos: Marcas de Canteiro, Relógios de Sol,
Tabuleiros de Jogo, Votos e Ex-Votos na forma de Suásticas,
Estreliformes, Cruciformes, Anagramas, Assinaturas de Peregrinos e
Espirais. Na Figura 53 apresentamos uma amostra do Graffiti
Hisórico que encontramos na Sé de Évora. Segundo Costa Moreira
Tavares esta Figura
representa “a identidade humana de um edifício”. Agradecemos o
generoso comentário. A vermelho, nesta Figura, destacamos alguns dos
Grafitos
- Em 1 apresentamos
a Cabeça de um Touro que
encontramos na fachada
da Sé. Esta Cabeça
foi gravada no granito em alto relevo. A
Sé está localizada
perto do sítio onde tínhamos a
Basilica em
período romano. Esta Basílica era decorada com um friso com Cabeças
de Touros. Animais que eram sacrificados aos Deuses em
rituais. Encontramos um
paralelo em Roma, na Basílica Aemilia, também
decorada com um friso com
Cabeças de Touros. O
Touro fazia parte do discurso oficial e passou para o discurso
marginal da Graffiti Histórico. Observamos aqui a importância do
Touro a Sul. Uma
imensa continuidade dentro
da Religião Popular.
- Em 2 observamos uma Vulva
localizada no exterior
da Sé na zona do
Claustro. Este
Ideograma está gravado
em baixo
relevo no granito. Tem provavelmente uma Função Votiva pedindo
Fertilidade a Nossa Senhora do Ó. Na Sé encontramos duas
representações de N. S. do Ó ou seja N. S. grávida. Uma destas
representações
está num altar mesmo no meio da Sé. O Claustro da Sé de Évora
está repleto de Votos, gravados
nas paredes,
provavelmente ligados à Fertilidade.
- Em 3 vemos um Cálice
localizado na Capela Funerária, do Bispo D. Pedro, do século XIV. O
nosso Cálice está, gravado
no granito do chão,
mesmo debaixo do Sarcófago. Está provavelmente ligado ao
Renascimento e
é
um Sincretismo.
- Em 4 temos uma
Moura-Serpente Alada que
surge gravada no granito da parede.
Esta está associada a
um enorme Hexagrama também gravado no granito. Estes ideogramas são
provavelmente Votos associados à Fertilidade.
Destes dois últimos
Ideogramas, a Moura-Serpente e o Cálice, falaremos num próximo
Post. Estes Ideogramas enquadram-se em Categorias muito interessantes
das quais temos reunido muita informação.
 |
| Figura 53 |
Continuamos por Évora e
vamos visitar a restaurada Igreja do Espírito Santo. Ao lado
encontramos a segunda mais antiga Universidade de Portugal e nossa
“alma mater”. A Universidade de Évora que foi fundada no século
XVI pelo Cardeal D. Henrique. A Igreja do Espírito Santo, também do
século XVI, é uma das primeiras Igrejas Jesuítas em Portugal.
Encontramos muito Graffiti Histórico nos pórticos da Universidade e
da Igreja. Incisos e Picados no mármore temos Datas, principalmente
do século XIX, Assinaturas, vários Ideogramas e até uma
representação de um Professor. Na Figura 54, em 1, observamos o
Ideograma desenhado a compasso dos “Seis Peixes”, inciso no
mármore de um dos portais do Templo. Em 2 temos mais desenhos a
compasso de “Círculos Concêntricos”, incisos em baldosas no
exterior dos edifícios. Encontramos também o “Vesica Piscis”
dentro da Igreja, inciso na madeira. Dentro da Igreja do Espírito
Santo encontramos muito Graffiti Histórico inciso e picado na pedra,
inciso e desenhado nos estuques e inciso na madeira.
 |
| Figura 54 |
Ainda em Évora vamos visitar
o Fresco das Casas Pintadas do século XVI (Figura 55).
No Palácio de D. Francisco da Silveira encontramos um belo Jardim,
com uma Capela e com o maior conjunto de Frescos
quinhentistas em Portugal. Estas estruturas foram anexadas pelo
Palácio da Inquisição, no final do século XVI, para acomodar os
Juízes do Santo Ofício. Hoje todo o conjunto pertence à Fundação
Eugénio de Almeida sendo um Centro de Arte e Cultura. Os Frescos
representam a mentalidade medieval, encontramos uma
cena de caça de garças
com falcões, uma cena
de luta de galos,
animais exóticos, seres
mitológicos como
sereias, harpias, uma espetacular hidra. Dentro da Capela vamos
encontrar um círculo inciso
nos
Frescos.
Quem o riscou não tinha muito amor pelos profanos Frescos.
Provavelmente um Juiz do Santo Ofício, dizem as más línguas.
 |
| Figura 55 |
Viajamos até
Montemor-o-Novo, dentro da muralha medieval vamos encontrar a ruína
da Igreja de Santa Maria do Bispo. Este Templo foi construído no
século XIV e renovado no século XVI. Do templo sobreviveu um
espetacular Portal Manuelino que apresentamos na Figura 56.
Também em ruínas encontramos um edifício que terá sido
provavelmente a Sacristia. Em 1 temos um desenho a compasso dos “Seis
Peixes” que encontramos, inciso no estuque, na jamba da janela.
Este Ideograma desempenha uma Função Apotropaica, protegendo a
Sacristia da entrada do mal. O cabeço onde encontramos o Castelo e a
Vila amuralhada será habitado provavelmente desde a Idade do Ferro.
A Fortificação que vemos hoje começou a ser contruída no século
XIII e foi renovada até ao século XVI. Nas muralhas da Vila
medieval de Montemor-o-Novo encontramos muito Graffiti Histórico. Em
2 deixamos o desenho de uma das embarcações que encontramos gravada
nas argamassas da muralha.
 |
| Figura 56 |
O Mosteiro de Santa Maria da
Vitória é Monumento Nacional e Património da Humanidade. Celebra a
vitória sobre os castelhanos na Batalha de Aljubarrota. Mandado
construir por D. João I em 1386, a sua construção demorou dois
séculos e parece que ainda não está acabado. São assim as obras
públicas em Portugal. O Mosteiro da Batalha é a Catedral do
Graffiti Histórico. Aqui encontramos: Marcas de Canteiro, Tabuleiros
de Jogo, muita Traçaria, Heráldica, Comentários, Assinaturas,
Datas, em vários tipos de Grafismos, grande número de Embarcações,
Castelos, Moinhos, Gruas, motivos Zoomórficos, motivos
Antropomórficos, belas Donzelas e seus Trajes, Cavaleiros,
Falcoeiros, Diabos, Caricaturas…. O estudo do Graffiti Histórico
do Mosteiro da Batalha foi iniciado por Jorge Estrela e tem hoje
continuidade com Orlindo Jorge. Este último investigador encontrou
muitos desenhos a compasso no Mosteiro. Grande parte destes fazem
parte da “Traçaria” associada à construção do monumento. Na
Figura 57, em
1, apresentamos o “Vesica Piscis” que surge inciso no
granito em pelo menos duas localizações. Em 2 vemos alguns dos
“Retratos” que surgem desenhados no Mosteiro da Batalha.
 |
| Figura 57 |
Em Sesimbra encontramos um
excelente exemplo de destaque dado ao Graffiti Histórico. Parabéns
a todos os envolvidos. No Hospital medieval do Espírito Santo dos
Mareantes, do século XV, encontramos várias Embarcações
desenhadas a carvão nas paredes. Segundo a investigadora Andreia
Conceição o Graffiti data do século XVIII. Na Figura 58,
em 1, observamos um
Ideograma, desenhado a compasso, de “Círculos Concêntricos”
inciso no estuque da parede. Este Ideograma tem provavelmente uma
Função Votiva. Em 2 apresentamos a interpretação da “AI” de 3
destas Embarcações que tiveram como base os desenhos do Museu.
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| Figura 58 |
Vamos agora até à Capital
da Extremadura Espanhola que fica aqui mesmo ao lado. Em Badajoz
encontramos muito Graffiti Histórico. Obrigado aos vários amigos
desta Cidade que têm partilhado informação connosco. Deixamos uma
pequena amostra da variedade e qualidade dos Grafitos de Badajoz (Figura 59). Em
1 vamos à Catedral de S. João Baptista, do século XIII, onde
encontramos alguns Círculos, incisos no mármore, protegendo um dos
portais da entrada do mal. Em 2 subimos à Alcazaba onde temos um
Anjo desenhado no estuque, vemos também os “Três Peixes” de que
já falámos e um Dragão a comer um desgraçado. Os dois últimos
Grafitos estão desenhados em relevo nos estuques da muralha
medieval. A Alcazaba remonta ao século IX e desde então teve
sucessivas renovações. Em 3 vemos algum do Graffiti do Hornaveque
da Ponte de Palmas do século XVII. Aqui encontramos Círculos
associados a um Touro e a Figuras Antropomórficas Femininas
provavelmente ligadas às tradições das Mouras Encantadas.
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| Figura 60 |
Passamos agora às
Fortificações Abaluartadas, do século XVII, onde encontramos muito
Graffiti Histórico inciso na taipa, argamassas e estuques.
Encontramos Assinaturas, Datas, Pequenos Textos, motivos
Vegetalistas, motivos Zoomórficos, muitas Embarcações, alguns
Edifícios, muitos Ideogramas entres eles os nossos “Desenhos a
Compasso”. Na Figura 60 apresentamos os “Círculos
Concêntricos” do Forte de S. Filipe em Setúbal. Agradecemos ao
Vitor Rafael Sousa a partilha da informação. Na Figura 61 visitamos de novo a Fortaleza de Juromenha no Concelho de Alandroal.
Apresentamos dois desenhos a compasso que estão incisos no estuque
da parede da antiga Cadeia Municipal.
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| Figura 60 |
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| Figura 61 |
Em Reguengos de Monsaraz
encontramos as tradicionais Mantas Alentejanas. Uma tradição que
ainda existe graças à visão e perseverança de Mizette Nielsen.
Estas Mantas são uma tradição que sobrevive provavelmente desde a
Idade do Ferro, usando a lã de ovelhas Merino e com padrões que
ainda encontramos no Norte de África. As Mantas são produzidas à
mão em Teares de madeira horizontais. Nestes Teares fomos encontrar
vários Ideogramas incluindo os nossos “Desenhos a Compasso”. Na
Figura 62 apresentamos uma “Cruz Patada” e “Círculos
Concêntricos” que surgem incisos
na madeira dos Teares da Fabricaal – Fábrica Alentejana de
Lanifícios.
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| Figura 62 |
No outro dia fomos passear a
Évora e estacionámos o carro na sombra. No nosso regresso alguém
tinha estacionado a carroça, e o burro, ao nosso lado. Para nosso
espanto lá estavam 8 Ideogramas dos “Seis Peixes” pintados na
carroça dos dois lados. Um veículo muito bem protegido que
apresentamos na Figura 63.
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| Figura 62 |
No Alentejo encontramos
muitos Ideogramas Mágico Religiosos protegendo todo o tipo de
objetos. A Arte Pastoril é muito rica em ornamentação, tinham
tempo, e esconde muita Religião Popular. Na Figura 64 observamos o nosso Ideograma desenhado a compasso dos “Seis Peixes”
em vários artefatos tradicionais do Alentejo. Em 1 temos um
“Chocalho” hoje Património da Humanidade. Este tem como
finalidade a localização dos animais pelo som. Sabemos sempre onde
eles andam pois fazem uma barulheira desgraçada, coitados. Para
segurar o Chocalho à cabeça do animal tínhamos uma tira de couro
fechada por uma “Cágueda”. Nas “Cáguedas”, em madeira,
encontramos muitos Ideogramas geralmente com uma Função
Apotropaica. Em 2 vemos um “Tarro” que é uma lancheira em
cortiça. Graças às características isolantes da cortiça, a
comida resiste ao clima alentejano. Nos “Tarros” encontramos
muitos Ideogramas também com Funções Apotropaicas com destaque
para os Estreliformes. Os Estreliformes vão desaparecendo do
discurso oficial, apesar de associados a Maria, e começamos a
encontrá-los apenas no discurso marginal do Graffiti Histórico. Em
3 encontramos bonitos talheres de madeira com vários Ideogramas
gravados com destaque para os “Seis Peixes”.
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| Figura 64 |
As “Cornas”, como o nome
indica, são feitas de cornos de bovídeos. Nestas guardavam-se
alimentos geralmente as azeitonas. Eram depois fechadas com rolhas de
Cortiça. As “Cornas” são, de longe, o artefato mais decorado e
que “esconde” mais Religião Popular do Alentejo. Um universo
riquíssimo em Ideogramas, motivos Antropomórficos, motivos
Vegetalistas, motivos Zoomórficos, Seres Míticos, tudo ligado
construindo histórias e Lendas das quais já não temos memória. Na
Figura 65 apresentamos “Cornas” com “Desenhos a Compasso”
e onde surgem também Peixes e Sereias. Agradecemos à Junta de
Freguesia do Corval a partilha da sua espetacular coleção de
“Cornas”.
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| Figura 65 |
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