O Peixe enquanto Graffiti, Ideograma e “Desenho a Compasso” - I Parte

 



O Peixe enquanto Graffiti, Ideograma e “Desenho a Compasso”


    O Graffiti acompanha o Homem desde a Pré-História. Encontramos na Arte da Pré-História as primeiras representações do mundo dos nossos antepassados. Nesse tempo a Arte era também Magia, Religião e até Ciência. Nos painéis rupestres encontramos línguas milenares pintadas e escritas na pedra. Cenas que são os livros e bibliotecas do passado. Percebe-se assim a importância da Arte Pré-Histórica. Compreende-se assim que pare a construção de Barragens. Para períodos recuados este “Graffiti Pré-Histórico” é reconhecido e valorizado. O Graffiti tem uma incrível continuidade. Há rochas onde o Homem vem "escrevendo" há milhares de anos. Rochas em que todo o espaço está preenchido por riscos que se cruzam e sobrepõem. "Puzzles" que têm que ser desmontados peça a peça. Um espetacular desafio para os investigadores. Encontramos nesta continuidade a importância do “Graffiti Histórico”. Uma autêntica máquina do tempo que nos permite chegar a mundos antigos ainda vivos. Lentamente temos sido apresentados a um mundo escondido à vista de todos o mundo. Um mundo que não se vê quando se anda a correr de um lado para o outro. É preciso olhar, voltar a olhar, se tivermos sorte, se a luz estiver no ângulo certo, lá vemos uns riscos. Estes são representam vozes de um passado que não está nos livros de História. O Graffiti Histórico é feito de Marcas de Canteiro, Slogans Políticos, Ideogramas Mágico Religiosos, Fórmulas Mágicas, Mouras Encantadas, Rezas e Maldições (Figura 1). Hoje o Graffiti, enquanto Arte, está bem vivo. Em Portugal temos mesmo uma "Geração de Ouro". Artistas como VHILS e Bordalo II elevam as suas formas de expressão a patamares reconhecidos internacionalmente. O Graffiti que tem sempre uma mensagem nem que seja apenas o nome do artista ou "tag". E quantos "tags" estão escondidos na Arte Rupestre por vezes na forma de uma simples mão.


Figura 1

    Encontramos nas obras de Arte que embelezam Palácios e Igrejas, nas Artes decorativas que embelezam vários estilos arquitetónicos, nas Epígrafes que nos dizem quem mandou fazer ou relatam os mais variados episódios, o discurso histórico "oficial". O discurso do poder, do Rei, do Estado, da Igreja e dos Senhores. Uma visão das elites que é um retrato parcial da Sociedade. O Graffiti Histórico é um documento histórico que podemos chamar de "marginal". São as impressões de quem não tinha posses para pagar Epígrafes ou quem não sabia escrever. As gentes comuns, o povo, vocês e nós. Nas paredes de Fortificações e Templo, nas portas e chaminés de Casas comuns, nas Fontes e Moinhos, em afloramentos rochosos encontramos a voz dos esquecidos. Incisos, desenhados ou picados na pedra, em estuques, argamassa ou na madeira encontramos um sem número de Grafitos. Estes representam preocupações do dia a dia, episódios importantes ou trágicos, o medo do desconhecido, vaidades e ansiedades tão comuns ao Homem. Deixo as palavras de Matthew Champion sobre Templos em Inglaterra (Champion, 2015):

    "....The coloured glass of the medieval church window and the dull brasses laid to marble upon the floor rarely carry images of peasant ploughing - they show instead the rich lords of the manor in all their finery (…) The images and texts that are inscribed into the very stones of the church building can often tell us far more about the medieval people who worshipped there than any amount of brightly coloured stained glass (…) the medieval graffiti that we discover in churches today tell us about all aspects of the medieval world. It tells tales of grief and loss, of love and humour. At times, it speaks to us of religious devotion and fear of damnation. It carries names of long-dead children across the centuries, records happy days of pageants and celebration...."

    Infelizmente muito do Graffiti está em risco de desaparecer. No espaço de uma ou duas gerações pouco restará. Este importante registo é de difícil identificação e dificílima interpretação. São riscos e gravações muito ténues que se escondem da vista. O Graffiti quando identificado é muitas vezes desvalorizado e interpretado como brincadeiras de crianças, como momentos de ócio, tabuleiros de jogo ou simples figuras geométricas e florais decorativas. Concordamos que o Graffiti seja tudo isto. E todos estes aspetos da vida são importantes merecendo registo e estudo. No entanto, temos vindo a compreender que grande parte do Graffiti é muito mais. Esta desvalorização do Graffiti enquanto documento e fonte histórica é gravíssima. É urgente que se faça o levantamento do Graffiti Histórico tão importante para a nossa Identidade Cultural. Por vezes são as próprias obras de renovação dos monumentos a destruir esta imensa fonte de informação. É urgente que o acompanhamento de obras em monumentos ou edifícios históricos tenham em conta o Graffiti Histórico.

    O objetivo deste trabalho é reunir a informação de vários sítios onde encontramos o marginal Graffiti Histórico. Podemos depois comparar com alguma informação que encontramos no discurso oficial. Cruzando toda esta informação conseguimos identificar Ideogramas, as Categorias onde se enquadram, a sua evolução para formas geométricas, as suas Funções, a Frequência com que surgem, em que Suportes, o que representam e, se possível, quando foram feitos.


I Parte – O Peixe enquanto Graffiti e Ideograma


    O Peixe faz parte da nossa alimentação desde o Paleolítico. Hoje Portugal é conhecido pela sua Gastronomia, pelos seus pratos de Peixe com destaque para as 1000 maneiras de cozinhar o Bacalhau. No Alentejo interior, longe do mar, o peixe do Rio é mais frequente. Aqui, no Concelho de Alandroal, onde fica a nossa Aldeia da Venda, temos o Festival anual do Peixe do Rio. Uma festa da Gastronomia onde são apresentadas várias receitas com Barbo, Sável, Lúcio-Perca e Carpa. Destacamos os mais tradicionais como a Caldeta, uma sopa de peixe, ou o peixe frito. O Alandroal fica na margem do grande Rio do Sul, o Guadiana, do arábico, o “Vale da Deusa Ana”. O Guadiana faz parte da Albufeira da Barragem de Alqueva. esta fechou as comportas em 2002 e demorou 10 anos a encher até à cota 152 metros. A tradição da pesca é antiga, o barco era a “Pateira”, usada para caçar patos, para pescar com redes, ou armadilhas, e para atravessar as águas. A sua forma apresenta grande estabilidade e permitia navegar em leitos pouco fundo e cheios de obstáculos (Figura 2).

Figura 2

    A força das águas era usada em Moinhos que transformavam cereal e azeitonas em farinha e azeite. Os Moinhos sempre foram pontos de encontro, de travessia de pessoas e cargas, de contrabando e contrabandistas, de pescarias e “Adiafas”. Os Moleiros eram também pescadores, montando as suas armadilhas nas levadas. No Inverno, não havendo cereal para moer, os moleiros investiam mais na pesca chegando a fazer disso negócio. Quando as famílias traziam o cereal para ser moído era tradição o moleiro oferecer uma caldeirada de peixe. Levar o cereal ao moinho era desculpa para umas mini-férias à beira de água. Nos moinhos encontramos muito Graffiti Histórico, traços incisos nos tijolos onde se contavam os sacos de farinha, Tabuleiros de Jogo no chão perto das portas onde havia mais luz, Relógios de Sol nas paredes, Ideogramas Mágico Religiosos protegendo mós e várias partes do Moinho.

    Na Figura 3 apresentamos a Casa do Moleiro e o Moinho do Lucas, na Ribeira de Lucefécit, no Concelho de Alandroal. Nesta Ribeira encontramos vários Moinhos sendo este um dos mais interessantes pela complexidade das estruturas e pelo enquadramento paisagístico. Infelizmente o Moinho do Lucas e Casa do Moleiro estão abandonados e em ruínas. Esta é a realidade de grande parte do Património Molinológico do Alentejo. Felizmente os Moinhos da Ribeira de Lucefécit foram alvo de um levantamento efetuado pelo Ricardo Pacifico do Município de Alandroal. Encontramos algum Graffiti Histórico no Moinho do Lucas, gente de passagem que riscou nomes e datas no estuque. Na Casa do Moleiro, no portal do lado esquerdo, vamos encontrar dois conjuntos de “Círculos Concêntricos” com uma Função Apotropaica. Encontramos com frequência “Círculos Concêntricos” em portais de edifícios protegendo a casa do mal. Na fachada encontramos, inciso no estuque, um Peixe de consideráveis dimensões. Não descartamos a Função Apotropaica do Peixe enquanto Ideograma Mágico Religiosos. Falaremos mais à frente sobre o Peixe no Cristianismo. No entanto, encontramos aqui provavelmente uma Função Prática. O desenho do Peixe indica a quem passa que o Moleiro, também pescador, tem Peixe para venda. São vários os exemplos de Graffiti nas fachadas dos edifícios anunciando o negócio que vamos encontrando na nossa região. Aqui, na Aldeia da Venda, temos o Graffiti de dois sapatos em alto relevo, no azul alentejano, na antiga casa do sapateiro.

Figura 3

    Na Figura 4 apresentamos o Moinho de Imersão de Entre-Águas no Concelho de Évora. É alimentado pelo Rio Degebe que desagua no Guadiana. Os Moinhos de Imersão eram construídos de maneira a resistir às frequentes cheias. As Ribeiras no Alentejo são muito sazonais, chegando a secar no Verão, enchendo com as chuvadas de Inverno. No interior do Moinho de Entre-Águas, inciso no estuque, encontramos algum Graffiti Histórico. Este refere-se a obras efetuadas em 1890 e indicando a construção do Moinho em 1708. Encontramos também um Coração , ou Fruto, ladeado por dois Peixes, com a data de 1842. Este Graffiti pode celebrar alguma reconstrução, ou evento, que se deu nessa data. Podemos também estar perante um Voto, pedindo algo aos Deuses, relacionado com o Sagrado Coração de Jesus. Diretamente abaixo do nosso Graffiti existia mais informação, esta poderia trazer alguma luz mas infelizmente já não se consegue ler.

Figura 4

    Vamos agora até à Vila Castelo de Vide no Norte alentejano. Na parte velha desta Vila, no Largo Dr. Frederico Laranjo, encontramos a Fonte da Vila. A partir desta Fonte saem várias Ruas. No início da Rua Nova encontramos um interessante Portal Manuelino. Picado no granito deste portal encontramos um interessante conjunto de Graffiti Histórico (Figura 5). Uma Epígrafe “MARUC(?) ME FECIT”, a letra “A” e um Peixe. A inscrição diz-nos que alguém chamado “Maruc(?)” fez o portal. Parece haver mais uma letra completando o nome mas não conseguimos ler. Esta Epígrafe foi gravada provavelmente pelo canteiro que lavrou o portal. Uma situação no entanto invulgar e pouco estética. O “A” é um Acrónimo onde podemos ler “Avé Maria”, estando o “M” dentro do próprio “A”. Quanto ao Peixe pode desempenhar uma função Apotropaica ligado ao Cristianismo. No entanto, pensamos tenha provavelmente uma função prática indicando o que se vendia no estabelecimento comercial.

Figura 5

    Castelo de Vide está na Rota das Judiaria e nesta Vila encontramos uma interessante Sinagoga. Os Judeus da Península Ibérica são os Sefarditas e “Sefarad” significava “a terra distante”. Na Idade Média os Sefarditas eram provavelmente 15% da população da Península Ibérica. Dentro das tradições Sefarditas o Peixe simbolizava fertilidade, prosperidade e proteção. O Peixe é parte importante da dieta dos Judeus sendo comido em alguns dos seus feriados. Foram os Judeus Sefarditas, expulsos da Ibéria, no fim do século XV, que levaram o peixe frito para a Inglaterra. Na fé judaica para o Peixe ser “Kosher”, obedecer às Leis da Torá em relação à alimentação, tem que ter escamas e barbatanas. A Rua Nova, onde está o nosso portal, fez parte da Judiaria de Castelo de Vide. Existe mesmo a referência a vários ferreiros Cristão-Novos instalados nesta Rua. Os Cristãos-Novos são Judeus forçados a converterem-se ao Cristianismo no fim do século XV. Encontramos uma forte presença de Judeus e Cristão-Novos no Largo da Fonte da Vila. O nosso portal é considerado Manuelino o que aponta para finais do século XV e início do século XVI. A nosso ver os Portais tardo góticos flamejantes podem ser bem mais antigos que D. Manuel. O Peixe que encontramos picado no granito tem as barbatanas muito bem demarcadas. Tudo isto nos leva a pensar que o Largo da Fonte era uma Praça do Peixe. Em Évora, a Praça do Sertório era a antiga Praça do Peixe, aqui encontravam-se muitos negócios ligados a famílias de fé judaica. Ainda em Évora, muito próximo da Praça do Peixe, tínhamos a provável Sinagoga que é hoje a Igreja de Santiago. Em Castelo de Vide encontramos uma situação semelhante com a Sinagoga muito perto do Largo da Fonte. Pensamos que a gravação do Peixe tem uma Função Prática, indica-nos a Peixaria, esta pode ser “Kosher”e localizada numa provável Praça do Peixe. Esta é a nossa interpretação de um Peixe gravado num portal e vale o que vale. No entanto, queremos destacar a importância do Graffiti Histórico para a compreensão de uma História que não está escrita.

    Deixamos o Alentejo e vamos até à Capital nunca esquecendo que o Alentejo é maior. Em Lisboa, no exterior da Igreja do Convento do Carmo, encontramos dois peixes picados no granito e trespassados por arpões (Figura 6). A Igreja fazia parte do Convento do Carmo, mandado construir por D Nuno Álvares Pereira em 1389. Este Convento foi afetada pelo tremor de terra de 1755 mas não foi reconstruído. Hoje é Monumento Nacional. uma ruína romântica que alberga o Museu Arqueológico do Carmo. O Graffiti dos Peixes, uma cena bastante intensa, foi parcialmente picada num silhar onde encontramos também uma Epígrafe. Não nos parece que o Graffiti dos Peixes e a Epígrafe estejam relacionados. Quanto aos Peixes pensamos que possam ter uma Função Votiva ligada à Pesca. Pedindo aos Deuses uma boa pescaria provavelmente de Atum. Posto isto, não podemos deixar de referir uma interessante história que se passou no Carmo. Muito perto, no Largo do Carmo, encontramos o Chafariz dos Golfinhos. Este monumento, do fim do século XVIII, foi quase demolido em 1875 devido aos constantes conflitos entre aguadeiros e moradores locais. Será que o Graffiti na parede da Igreja do Carmo está relacionado com a Fonte? Estaremos perante dois golfinhos trespassados por arpões? Um protesto dos moradores no século XIX sob a forma de Graffiti. Quem sabe.

Figura 6

    Apresentámos o Graffiti Histórico de Peixes com Funções Práticas. Ressalvando que algumas destas representações podem também ter uma Função Votiva. Em qualquer dos casos o Graffiti representa efetivamente um Peixe. Passamos agora a apresentar o Peixe enquanto Ideograma Mágico Religioso. O Peixe teve sempre um papel na Mitologia e nas várias Religiões que encontramos pelo Mundo fora. Representa Criação, Fertilidade, Abundância, Sabedoria, é um Protetor e também um Mensageiro. No Budismo vamos encontrar o Peixe no Ideograma que é a “Pegada de Buda”. Na Polinésia a Via Láctea é “Ikaroa”, o grande Peixe criador do Mundo. No Japão vamos encontrar o Peixe como destruidor, o “Namazu”, causando tremores de terra. Na Índia o Peixe foi o primeiro Avatar do Deus Vishnu e salvou o Rei Manu do grande dilúvio, na Figura 7 em 1. Ainda na Índia um par de Peixes representa Fertilidade. Este Ideograma, com um Báculo no meio, foi usado pela Dinastia Pandya que reinou quase 2000 anos no Sul da Índia, Na Figura em 2. No Zodíaco, o Círculo dos Animais, encontramos também dois Peixes. No Egipto o Peixe representava Fertilidade e Renascimento, estava associado à Deusa Hator e era usado como Amuleto associado à Fertilidade. Parece que um Peixe comeu o pénis de Osíris mas não vamos por aí. Na Mitologia Irlandesa o Salmão representa a Sabedoria e surge no Livro de Kells. Já falámos sobre o papel do Peixe entre os Judeus. Na Bíblia surge em episódios do Antigo e Novo Testamento. No Cristianismo o Peixe é um Ideograma que representa Jesus Cristo. Na Figura 8 apresentamos alguns Cristogramas. Em 1 temos Peixe em Grego que se pronuncia “Ichthys”. É considerado um Acrónimo traduzindo-se em português como “Jesus Cristo Deus Filho Salvador”. Em tempos de perseguições os Cristãos usavam o Ideograma do Peixe para se identificarem. Em 2 vemos o “Chi Rho” ou “Chrismon”. Este Ideograma resulta da união de duas letras Gregas o “X” e o “P”. Sendo estas as duas primeiras letras da palavra “Cristo” em grego. Por vezes surge representado com o “Alpha” e o “Omega”, com o princípio e o fim, do alfabeto grego. Começou a ser usado pelo Imperador Constantino, no século IV, numa batalha contra um seu rival. Constantino teve um sonho em que Deus lhe disse para colocar o Ideograma nos escudos dos seus soldados. O Imperador assim fez e ganhou a batalha derrotando Maxentius. O Cristograma seguinte, uma derivação do primeiro, é o “IX” ou “Cruz Batismal”. Neste encontramos as letras “I” e “X” do alfabeto grego. Estas representam as iniciais de “Jesus Cristo”. De seguida temos os Ideogramas estilizados destes Cristogramas em círculos com seis e, por vezes, oito raios. Em 3 encontramos o Anagrama “IHS” com um Cruciforme. Este Ideograma significa, em Latim, “Iesus Hominum Salvator” ou seja “Jesus Salvador dos Homens”. No século XVI, os Jesuítas, adicionaram três pregos e colocaram o “IHS” dentro do Sol, transformando este Cristograma no seu “Logo”.

Figura 7

Figura 8

    Na Figura 9 vemos o Ideograma “IHS” apresentado e o seu enquadramento num autêntico oratório de Graffiti Histórico. Um oratório picado no mármore de um dos cunhais da Igreja de Santa Maria, do século XVI, no Concelho de Estremoz.

Figura 9

    Vamos encontrar o Peixe, como Ideograma Mágico Religioso, na Igreja de Santo António no Concelho de Alvito (Figura 10). Aqui não está representado enquanto Graffiti Histórico mas como um alto relevo. Não faz parte de um discurso “marginal”, faz parte do discurso “oficial” de quem construiu o Templo. É tão bonito que temos que mencioná-lo neste trabalho. Foi gravado num silhar de granito de um dos cunhais da Igreja, ao nível dos olhos, provavelmente para ser tocado. Pensamos que desempenha uma Função Apotropaica protegendo o cunhal. Passar uma esquina sempre foi problemático, nunca sabemos o que nos espera do outro lado. São muitos os Ideogramas que encontramos protegendo cunhais de vários tipos de edifícios. Na Figura 11 apresentamos três exemplos de cunhais protegidos por Ideogramas. Em 1 vemos o cunhal da Torre de Menagem do Castelo de Monsaraz. Aqui foi inciso no granito um “M” invocando a proteção de Maria. Em 2 visitamos o Convento de Jesus em Viana do Alentejo. Encontramos um cunhal protegido por vários Cruciformes, apresentamos dois deles. Em 3 saltamos a fronteira e vamos a Espanha ao Castelo de Medellin. Aqui encontramos um Ideograma Quadrangular protegendo um dos cunhais da muralha. Este Ideograma é confundido, como aliás todos os Ideogramas Quadrangulares, com um Tabuleiro de Jogo, um preconceito que pretendemos desconstruir.

Figura 10

Figura 11

    Voltamos a Portugal, damos um salto a Évora e vamos visitar o Convento de S Francisco. Um Convento que teve origens modestas com os Franciscanos no século XIII. Transformou-se num Paço Real, no Convento de Ouro, nos séculos XV e XVI. Aqui encontramos a famosa Capela dos Ossos forrada com as ossadas de 5000 indivíduos. Chegámos a ter onze Capelas dos Ossos no Sul de Portugal sobrevivendo seis até aos nossos dias. Três estão no Alentejo, em Évora, Campo Maior e Monforte (Figura 12). As outras três vamos encontrá-las no Algarve em Lagos, Alcantarilha e Faro. Na Igreja de S. Francisco vemos um magnífico duplo Portal Manuelino em granito e mármore. Neste encontramos o Brasão de Portugal e as Armas dos Reis D João II e D Manuel. O interessante Pelicano de D João II que se sacrifica pelas suas crias como o Rei se sacrifica pelo seu povo. Uma tipica decoração Manuelina com muitos motivos Vegetalistas, ligados ao Mar e aos Descobrimentos. No Átrio do Templo vamos encontrar um interessante Peixe picado no chão. Pensamos que tenha uma Função Apotropaica protegendo o Templo da entrada do mal (Figura 13). A Igreja de S. Francisco foi paga pelo Rei e desenhada pelos Arquitetos Reais. No entanto, inclui alguns elementos que podemos associar à Religião Popular. Vamos encontrar no Pórtico uma face esculpida num dos arcos. Um Mascarão que também tem uma Função Apotropaica. Pequenos Mochos escondem-se nas bases das colunas. Dentro do Graffiti Histórico encontramos o referido Peixe, Cruciformes Votivos, uma “Covinha” associada a Geofagia, um Ideograma Quadrangular provavelmente associado às várias sepulturas que existiam em redor do Templo.


Figura 12

Figura 13

    Na Figura 14 apresentamos o Graffiti Histórico de Peixes que encontramos na Vila de Monsaraz e arredores. Em 1 o Grafito encontra-se inciso no xisto do Adro da Igreja de Nossa Senhora da Lagoa. Recentemente adicionaram uma barbatana dorsal e transformaram-no num tubarão. Este Peixe teria uma Função Apotropaica protegendo da entrada do mal. Muito perto encontramos incisos alguns Tabuleiros de Jogo do Alquerque, um Pastor com o seu cajado em forma de Báculo, Assinaturas e muito mais. Em 2 o Grafito encontra-se inciso no xisto da cobertura da Cisterna medieval. Este espaço é chamado de Varandim pelos locais e aqui realizavam-se os bailes noutros tempos. Este Peixe encontra-se provavelmente associado ao Cristianismo. Sobre a porta que dá acesso a esta Cisterna encontrámos uma inscrição que ainda não tivemos oportunidade de decifrar. Esta inscrição pode-se referir à data de construção da Cisterna. É de referir que dentro da Cisterna observamos algumas estruturas. Segundo a tradição oral estas fariam parte da antiga Mesquita. Em 3 e 4 apresentamos Grafitos incisos no estuque da parede dos antigos Paços da Audiência. Um edifício do século XIV que reunia Câmara, Tribunal e Cadeia. Os Peixes estão debaixo do Fresco do “Bom e do Mau Juiz” do século XV. Em redor deste Fresco encontramos muito Graffiti Histórico de que falaremos mais à frente. Aqui os Peixes teriam uma Função Votiva pedindo a ajuda dos Deuses nos assuntos a serem resolvidos. Em 5 saímos da Vila de Monsaraz e vamos caminhar pela Serra dos Motrinos. Os nossos Peixes da Serra dos Motrinos estão incisos num afloramento xistoso. Estão muito bem desenhados com as escamas bem representadas. O Peixe da direita parece ser uma figura antropomórfica ou representar movimento como por vezes observamos na Arte Rupestre.

Figura 14

    Recuamos agora até ao período romano quando os telhados eram feitos com dois tipos de telha: a Tégula e o Imbrex. Do Imbrex nasceu a telha portuguesa em canudo. Apresentamos um fragmento de Tégula onde encontramos gravados um Peixe e Ondulados (Figura 15). O Peixe é um Ideograma que identifica alguém de fé Cristã. Os Ondulados são provavelmente Serpentes ou Água, ou a Serpente enquanto Água, representando Fertilidade e Renascimento. Não sabemos se esta telha protegia um edifício ou se foi reutilizada em alguma sepultura. Encontramos muito Graffiti Histórico nas coberturas, e tectos, de edifícios religiosos. Uma tradição que remonta ao Antigo Egipto onde encontramos muitas telhas com Ideogramas cobrindo Templos famosos. Também encontramos muito Graffiti Histórico em contextos funerários. Muitas elementos pétreos e cerâmicos usados na estrutura de enterramentos são autênticas estelas funerárias. Este fragmento de Tégula foi uma descoberta muito interessante nas margens do Guadiana/Alqueva. Agradecemos a partilha da descoberta ao nosso amigo Joaquin Larios Cuello.

Figura 15

    Um Ideograma Mágico Religioso muito interessante que temos vindo a encontrar é os “Três Peixes” com a mesma cabeça. Na Figura 16 observamos pratos com a representação de conjuntos de Peixes encontrados em túmulos do Antigo Egipto. No prato do meio, com mais de 3000 anos, encontramos a representação dos “Três Peixes”. Nestes pratos observamos o Peixe “Tilápia” juntamente com a representação de “Lótus”. Estes pratos eram depositados nos túmulos com oferendas e estavam ligados ao renascimento do defunto. Segundo Annabel Galop esta será a representação mais antiga do ideograma dos “Três Peixes”. Esta investigadora afirma que esta representação gráfica tão perfeita da unidade triplice acabou por ser apropriada por as grandes Religiões do Mundo: Cristianismo, Budismo, Hinduísmo, Islamismo. Apesar de nunca ter se tornado uma componente essencial e reconhecida da respetiva iconografia religiosa. Por cá vamos efetivamente encontrar este Ideograma no marginal Graffiti Histórico. Pode ter chegado até aos nossos dias numa forma estilizada de que falaremos mais à frente. Na Figura 17 apresentamos mais exemplos do Ideograma dos “Três Peixes”, referidos por Gallop. Em 1 encontramos o Ideograma no Budismo indiano. Em 2 encontramos o Ideograma num manuscrito da Indonésia dentro da corrente do Sufismo. Em 3, agora na Europa, vamos encontrar os “Três Peixes” em França. O Arquiteto Villar de Honnecourt inclui o Ideograma nos seus desenhos no século XIII.

Figura 16

Figura 17

    A primeira fortificação e povoado de Monsaraz será provavelmente da Idade do Ferro. No século XII. Geraldo Sem Pavor, esse terrível mercenário, terá conquistado o Castelo Islâmico temporariamente. No século XIII, D Sancho II e os Cavaleiros Templários, conquistaram definitivamente a fortificação. A partir desta data a fortificação foi sendo melhorada até à construção da Fortificação Abaluartada no século XVII. O centro da fortificação medieval era a Torre de Menagem, onde habitava o Alcaide. Na Alcáçova de Monsaraz, segundo planta de Duarte de Armas, tínhamos os Armazéns, Estábulos, uma Capela e uma Cisterna. Toda a Alcáçova era rodeada por uma muralha, mais baixa, a Barbacã. Em volta de tudo isto ainda tínhamos um fosso escavado no afloramento rochoso. Foi aqui que encontrámos pela primeira vez o Ideograma dos “Três Peixes” (Figura 18). Inciso no xisto, da parede do fosso medieval, encontrámos dois conjuntos de “Três Peixes” associados a um Estreliforme e vários Anagramas. Os Anagramas são “Avé Marias” e “Pais Nossos”. O Estreliforme representa Maria enquanto estrela da manhã, o planeta Vénus, enquanto Deusa que traz a luz do dia. Existe mais informação neste Painel mas a leitura é difícil pois a patine é muito antiga. Parte do Painel já foi destruído pela erosão. Podemos estar perante Graffiti Histórico do século XIII. Na Figura 19 apresentamos outras Fortificações medievais onde surge o nosso Ideograma dos “Três Peixes”. As muralhas da Vila medieval de Vila Viçosa são um mundo de Graffiti Histórico. Este facto relaciona-se certamente com a proximidade do Santuário de Nossa Senhora da Conceição. As muralhas medievais foram renovadas nos séculos XIII e XIV pelos Reis portugueses. Tivemos progressos na guerra ofensiva, os canhões começaram a destruir as muralhas medievais, estes progressos forçaram a avanços na guerra defensiva. O Castelo de Vila Viçosa foi reconstruido, enquanto Forte, no século XVI, segundo uma planta de Leonardo da Vinci. No entanto, parece que partes do Castelo medieval sobreviveram dentro do Forte quinhentista. Em 1 vemos do “Três Peixes” inciso no estuque das muralhas medievais de Vila Viçosa. Em 2 temos os dois Ideogramas dos “Três Peixes” incisos no xisto de Monsaraz. Em 3 voltamos a saltar a fronteira e visitamos Badajoz. Nas muralhas medievais da Alcazaba de Badajoz, do século XII, encontramos também os “Três Peixes” inciso no estuque. Este Ideograma está realçado por um diferença de tom na côr do estuque. Não sabemos se este pormenor é resultado das recentes renovações das muralhas. Também não sabemos que religião riscou este Ideograma em Badajoz. Pode ter sido ainda em período Islâmico dentro da corrente do Sufismo. Pode ter sido depois da Reconquista e já em período de domínio Cristão. É no entanto o mais interessante dos Ideogramas dos “Três Peixes” que conhecemos. O Ideograma dos “Três Peixes” é dos Ideogramas mais antigos que relocalizámos. Os exemplos apresentados são definitivamente da Idade Média. Representam uma Trindade, dentro do Cristianismo a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

Figura 18

Figura 19

    Descemos até ao Reino dos Algarves e vamos visitar Albufeira. Aqui encontramos a Casa Bailote, do século XVIII, profusamente decorada pela família Bailote (Figura 20). Nas fachadas desta casa encontramos milhares de conchas representando vários Ideogramas, entre eles encontramos os “Três Peixes”. O Ideograma está um pouco alterado, os peixes já não estão unidos. No entanto, é interessante encontrar esta sobrevivência moderna. A decoração com conchas, ou Embrechados, surge em vários edifícios portugueses, destacamos o Paço Real dos Henriques na Vila de Alcáçovas do século XVI. No jardim do Paço encontramos a espetacular Capela de Nossa Senhora da Conceição. Esta está forrada, por dentro e por fora, com milhares de conchas (Figura 21). As próprias conchas são, em si, um Ideograma que representa Amor e Fertilidade. A partir da Idade Média as conchas passaram a representar proteção na Peregrinação até Santiago de Compostela. Hoje é o “Logo” de “El Camino”. As conchas da Capela da Conceição formam vários Ideogramas sendo um deles a “Roseta Hexapétala”. A nosso ver este Ideograma pode representar “Seis Peixes”. O conjunto de Ideogramas da Capela formam uma “Rede Apotropaica”. Estas “Redes” surgem sob diversas formas no Alentejo. Vamos encontrá-las “oficialmente” e em meio urbano, pintadas ou como Azulejos, nas fachadas e interior de vários tipos de edifícios. No “marginal” Graffiti Histórico vamos encontrá-las, tanto em meio rural como urbano, principalmente na vertical. Surgem sob a forma de uma malha, onde traços verticais e horizontais se cruzam por vezes de forma desorganizada.

Figura 20

Figura 21

    Na Figura 22 vemos uma “Rede Apotropaica” num afloramento xistoso da Ribeira do Alfragão no Concelho de Alandroal. Esta surge associada a um par de botas como que pedindo proteção para uma viagem. Estas “Redes” apesar de verticais, e pouco organizadas, são com frequência interpretadas como Tabuleiros de Jogo. Surgem muitas vezes riscadas em lajes de xisto soltas sendo, de novo, interpretadas como Tabuleiros de Jogo. Neste último caso podemos estar perante Estelas funerárias. As nossas “Redes Apotropaicas” protegem vivos e mortos ou os vivos dos mortos. As “Redes” quando surgem em edifícios estão frequentemente nas ombreiras de portas e janelas. Na Figura 23 apresentamos uma “Rede Apotropaica” protegendo um chafurdo no Concelho de Alandroal. As nossas “Redes” surgem também na forma de “Desenhos a Compasso”, principalmente enquanto “Flor da Vida”. As “Redes Apotropaicas” bloqueiam ou apanham o mal da mesma maneira que os “Nós Eternos” que muitos Ideogramas formam.

Figura 22

Figura 23

    Um belo exemplo de “Redes Apotropaicas” encontramos na Arte Islâmica e nas suas complexas construções geométricas (Figura 24). Vamos encontrar muitos Ideogramas Mágico Religiosos escondidos na elaborada Arte Islâmica. Deixamos as palavras de Cláudio Torres (2007):

    "Um tal fascínio dos artistas muçulmanos pela decoração geométrica intriga os historiadores da Arte, que avançaram várias hipóteses. Para alguns, terá sido o peso do tabu religioso sobre a representação figurativa....Para outros, a importância conferida pelos muçulmanos ao estudo da matemática e da ciência dos números.....Para os partidários da influência do pensamento religioso e místico sobre a mentalidade dos artistas, os traçados, nas suas formas infinitas, refletiam o fundamento da crença na indivisibilidade de Deus. E para os adeptos do simbolismo e esoterismo, cada figura geométrica representaria um símbolo - os artesãos, agrupados em confrarias de iniciados, conservaram o hermetismo dos códigos e o significado dos símbolos".

Figura 24


Bibliografia


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Ricardo, Silvia; Magusto, João (2018) – Simbolos e Marcas Rupestres nas ombreiras e lintéis de portais do Centro Histórico de Castelo de Vide.

Silva, Luis (2018) – Os Moinhos e os Moleiros do Rio Guadiana.

Torres, Cláudio (2007) - À Descoberta da Arte Islâmica no Mediterrâneo.


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